A deturpação do amor

Amor de criança, pureza nos sentimentos.
Amor de adolescente, paixão arrebatadora.
Amor da juventude, planejamento de vida.
Amor adulto, jogo de interesses.
Amor terceira idade, a volta às raízes.

Olho ao meu redor e vejo que amores antigos, aqueles que iniciaram-se na infância ou na adolescência, foram aqueles iniciados por pura sintonia. Por afinidade. Muitos não seguiram em frente. Mas foram intensos e verdadeiros enquanto duraram. Simples como gostar de se estar ao lado da pessoa independentemente de status, posses ou de pagar ou não bebida na balada. Nessa fase, nem carteira de motorista as pessoas têm e não estão, em sua maioria, com suas vistas embaçadas pelo fator “ter”. É o sentimento à tona. E ponto. Crianças (leia-se pré adolescentes) e adolescentes vivem o agora. O futuro está longe demais para ser analisado. O amor é energia.

Amores jovens, aqueles dos 20 e poucos anos, já começam a não ser 100% afinidade. Outras variáveis passam a contribuir mais fortemente para a escolha do grande amor, como carro que anda, faculdade que faz, trabalho que tem e por aí vai. Não julgo, só constato. O “futuro”, ou a pressão social pelo futuro, começa a bater à porta. Não dá mais para se esperar conhecer alguém despretensiosamente como outrora. É necessário um checklist básico para que não se perca tempo na relação (1 minuto de silêncio). O amor é um plano. Não há tempo para esperar a magia pairar.

Amores adultos, ahhhhh… Óbvio que há exceções, mas esse amor é aquele frio e calculista. Aquele que vem depois de todo um checklist ter sido analisado, mesmo que de forma mental e imperceptível ao analisador. Sua mente já está provida de inúmeras exigências. O amor é execução. A energia “””tem””” que andar junto.

Como um ciclo, o amor na terceira idade parece deixar de ser tão material como o amor adulto e resgata-se a energia da afinidade. Do viver. Do que ainda resta por aqui…

Não estou aqui dizendo que isso é regra. É só o que observo. O que ouço dos amigos solteiros. E o pior: acontece sem que as pessoas percebam na maioria dos casos.
Um amigo estava me contando do seu final de semana na balada. Disse que conheceu duas meninas muito legais. Uma mais bonita. Na hora de ir embora ele viu seus carros. A mais feia tinha carrão. De quem vocês acham que ele pediu o telefone? Isso foi imperceptível a ele. Ele só se tocou quando eu percebi isso e chamei a atenção dele, rsrsrs…

Vejo também amigas que terminaram um relacionamento formado na adolescência e sentindo-se uma peça de picanha expostas na balada. Ou amigos que, ao encontrarem uma paquera numa troca de olhares, antes do próprio nome questionam sua posição social. Os casos são inúmeros. Minha avó diz que o mundo está perdido, Rsrs…

Ok, o mundo mudou. Tudo muda. Mas o amor, esse não. Ele é o mesmo sentimento puro, verdadeiro e desligado de qualquer checklist. É afinidade, é querer estar junto.

O dicionário define AMOR
“ô) s.m.(o)
1- Afeição profunda a outrem, a ponto de estabelecer um vínculo afetivo intenso, capaz de doações próprias, até o sacrifício.
2. Dedicação extrema e carinhosa.
3. Sentimento profundo e caloroso.
4. Apego.
5. Carinho; ternura.
6. Cuidado; zêlo.
…”

O problema é que qualquer relacionamento hoje é dito “amor”. É a banalização do “eu te amo”. E as pessoas acreditam fortemente estarem construindo amor onde se coloca em primeiro lugar o material. Triste. Por que o título “deturpação do amor?”. Por que as pessoas tentam tornar esse sentimento falso, interesseiro. É apenas uma constatação de um mundo cada vez com menos valores.

Como amores são criados em cima de tudo isso? Tudo é possível! Só não sei com qual solidez! Não que precise ser sólido, mas que isso seja assumido, não só por um lado, mas por ambas partes envolvidas. Mas as pessoas casam-se em cima de base alguma. Quando o ter é visto antes do ser, raramente é criada uma base sólida para o relacionamento. A não ser que seja cultural, o que não é o caso do nosso país. E tá aí uma razão para a efemeridade das relações formadas para serem sólidas. Sem base, não se constrói alicerces.

O amor de mãe, amor de pai são exemplos de amores reais. Ama-se por amar, incondicionalmente, sem precisar de nada em troca. Só de ter aquela pessoa ao lado, de cuidar dela, de acompanhar seu trajeto, já nos sentimos satisfeitos.

Um amor AMOR mesmo, é aquele em que você tem tanta afinidade pela pessoa, pelo que ela é, que não se importa com o que ela tem ou com o que oferece. Quer estar junto. Quer seguir com essa pessoa. Aqui não vou abordar as dificuldades do dia a dia, nada são flores. Nem no amor. Porém, ressalto que sem as bases, as coisas ficam extremamente mais difíceis.

Se você procura um amor, mais que você esteja tendenciosamente declinado as exigências que a “idade” (ou intoxicação social) te trouxe, tente enxergar o mais livre disso tudo possível. Se desprender do que a vida nos calejou. Deixe o amor ser apenas amor. Primeiramente energia e depois carnal ou material. Isso que muitos perderam na adolescência. E o tempo será capaz de edificar muito melhor tudo com os ingredientes orgânicos com o qual o alimentou.

 

Por Marrie Ometto #reflexoesplugadas

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3 Comments

  1. Rodolfo

    8 de janeiro de 2016 at 07:25

    É um fato que o relacionamento despretensioso existe e ele dá certo pra algumas pessoas. Não sei se pra vida toda, mas é fato que dá certo pra algumas pessoas.

    Sobre a deturpação e a banalização do amor, eu creio que poderia ser dito também um desconhecimento do amor. Eu aprendi o que é amor incondicional porque minha família sempre foi cercada disso e mesmo que eu não goste de um familiar próximo (sua maneira de pensar, seus gostos e escolhas), eu ainda o amo incondicionalmente. Acho que hoje os seres humanos não são ensinados sobre o que é amor. Culturalmente e socialmente os pais estão mais preocupados em ter uma criança que orientar um ser humano. Faz-se o filho, mas mostrar-lhe o mundo fica em segundo plano. E por conseguinte a experiência do amor, a vivência do amor, fica em segundo plano.
    Adolescentes são uma profusão de sentimentos e hormônios (remetendo a um texto aqui do site mesmo, eles estão aprendendo sobre o que e quem são) e as coisas podem ficar bem confusas e o amor pode passar como algo piegas, algo desnecessário, algo prejudicial ou pior, pode ser confundido com qualquer outra coisa.

    Minha idéia e minha experiência com amor sempre foram diferentes das daqueles à minha volta. Me apaixonei na adolescência e tive a maior desilusão da minha vida amorosa a partir da qual decidi que não amaria mais ninguém de tal forma, pois só me traria sofrimento e eu não precisaria daquilo. Depois de uma depressão, tornei-me uma pessoa fria e vazia. Sexo era comum e era bom, mas não queria proximidade com as pessoas. Amigos eram facilmente descartados caso se tornassem um estorvo.
    Muitos anos depois em uma segunda faculdade, já mais maduro e dando muito valor a bons amigos, aproximei-me de uma garota bem mais nova. Simpática, inteligente e criativa, ótima conversa. Ficamos amigos. Estudávamos juntos e trabalhávamos juntos. Com a convivência e o tempo, quase depois de um ano ela se deu conta de que me amava de uma forma diferente. Eu me afastei. Não por não querer amá-la, eu simplesmente não amava. Não era algo que existia mais dentro de mim eu nem precisava reprimir, porque simplesmente não existia. Como ela era uma menina legal e me amava, resolvi abrir o jogo com ela e ser sincero. Contei-lhe todos os meus problemas, todos os meus defeitos, disse que sua vida não seria fácil comigo e que eu não a amava, mas que era uma boa amiga e que gostava da sua companhia e que se tivesse certeza do que queria, poderíamos namorar. Pra minha surpresa ela aceitou todas as condições. Foram de 3 a 4 meses de convivência ants que eu pudesse perceber aquele sentimento tão esquecido crescendo de novo. É um amor diferente e acho que é aí que está a maior força dele. Foi conquistado com esforço, com dedicação, com respeito, com carinho. Não foi uma paixão arrebatadora à primeira vista, mas não teve com certeza materialismo envolvido.

    Era pra ser só uma perspectiva diferente, mas acabou virando um desabafo, desculpe. Aliás, créditos ao seu texto por isso. Adorei as colunas, são muito boas. Está de parabéns. Continue assim.

  2. Thaisa

    15 de dezembro de 2015 at 11:18

    Eu vejo muito isso acontecer. Meu ciclo de amigas está na faixa dos trinta, e algumas terminaram seus últimos relacionamentos na adolescência. Conversando com elas, escuto: acho q vc devia ter esperado um pouco para casar, ou, piadas do tipo, vc é daquelas que acorda cedo pra lavar quintal, ou, às vezes me olham até como se eu estivesse alienada, isso porque larguei status e profissão e vim morar em uma cidade com poucas perspectivas profissionais, com um homem que na época não era bem sucedido. Mas eu o amei pq senti que nele eu podia confiar e tínhamos o mesmo sonho de construir família, tínhamos o mesmo asco do mundo corporativo. Graças a confiança, o micro empreendimento tornou- se pequeno empreendimento, vivemos com simplicidade mas com conforto, perdi meu emprego na melhor hora, pois hoje me preparo para ter meu filho e posso cuidar do meu lar e do meu marido. Tenho a minha atividade extra que me permite fazer minhas coisas e estou extremamente feliz e plena. Enquanto isso, observo aquele falso discurso, das mulheres solteiras, que estão plena e felizes, mas não desgrudam do tinder. Conhecem homem através de app, saem com eles, e no dia seguinte o que escuto: ele trabalha com isso, é viajado, tem família, gosta disso ou daquilo. E me pergunto, mas e ele? É do bem? É legal? O que busca para vida ? E depois que esse fast racionamento vai pro ralo, volta aquele escudo de auto confiança, aquele discurso de relacionamento liberal, que aliás é outro ponto que me assusta. Que não querem amar, se sentir presas, que querem um homem só se for assim, assado…nisso, os anos vão passando e vejo essas pessoas cada vez mais cheias de histórias em bar e menos histórias de amor, menos vida real, menos tão tanta coisa.

    1. Marrie Ometto

      15 de dezembro de 2015 at 14:22

      Arrepiei com seu comentário. Achei linda sua história e a maneira como seguiu com a verdade dos seus valores. Parabéns! Realmente eu também fico assustada com esse discurso clichê do “não quero nada sério”, “só por uma noite” e frases afins… Vive-se de usufruir. Não se sente mais. Triste.

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