A questão não é gostar ou não de ser mãe. Essa é só a pontinha do Iceberg.

A questão não é gostar ou não de ser mãe. Essa é só a pontinha do Iceberg.

Recentemente no Facebook houve um desafio maternidade (para quem não acompanhou, clique aqui), nem sei iniciado por quem, onde mães postariam 3 fotos que representassem o quanto elas amavam aquilo. Desafio vai, desafio vem, todas felizes e contentes postando (inclusive eu, em meu perfil pessoal) e, de repente, uma polêmica. Alguém, como num grito de socorro, alega que não gosta de ser mãe. Mas ama seu filho.
Pronto. Confusão armada. Xingamentos, denuncias na rede social, show de horrores.
Sem entrar em mais detalhes nesse ocorrido em especifico, que não é o foco do post (usei-o para exemplificar o que quero debater aqui): o que afinal está debaixo da ponta desse Iceberg?
Todas as que postaram alegria à maternidade, disseram amar seus filhos. A que disse não gostar da maternidade afirmou o mesmo amor. Quase unânime as mães que, apesar de amar a maternidade e seus filhos, admite a dificuldade em se adequar à nova realidade, agora com responsabilidade de mãe para a vida toda. Bem, se o amor pelos filhos é unânime e as dificuldades também, a interpretação do amor ou não ao ato de ter se tornado mãe (independentemente ao amor ao filho, levando como fato isolado as mudanças na vida desta mulher) é algo muito complicado.
Vivemos séculos e séculos em sociedade patriarcal, onde a mulher não tinha voz. Se for comparar o tempo que temos do advento feminista (que seja você a favor ou não, tem que pelo menos admitir que deu voz a mulher)  ao tempo de paternalismo, a voz que a mulher tem na sociedade é apenas um embrião e, como tal, ainda está se adaptando e conquistando seu espaço. Esse processo não está pronto.
Por que estou falando isso?
Simplesmente porque é parte submersa importante da ponta desse iceberg que vemos.
Observem a geração de nossas mães. O que a grande maioria das nossas mães nos ensinaram? A sermos independentes, a pensarmos em nós, a nos amarmos, nos cuidarmos e a não nos curvarmos sem debater às decisões masculinas.
E o que fizemos? A grande maioria escutou. Nossa geração foi a luta. Invadimos as universidades, o mercado de trabalho, lutamos de igual para igual, mesmo sendo menos valorizadas, com aqueles que já haviam fazendo isso a milhares de anos, talvez até enraizados em seus instintos (rsrsrs, ok exagerei).
Mas em algum momento, nossas mães avisaram como seria nossa vida após a chegada de um filho? Naquela época não era frequente o termo terceirização dos filhos. Por mais que sua mãe trabalhasse, e você ficasse com vó ou babá, “a caneta caia” no fim do expediente, e mamãe estava em casa cedo, sem overtime em home Office, coisa que praticamente não existe mais hoje.
Como poderiam avisar, se não viveram aquilo. Tá aí um bug do milênio. Como ser mulher, linda, saudável, independente emocionalmente e financeiramente, sem precisar terceirizar um filho?
Se antes a luta era da igualdade de direitos, que ainda se mantém, hoje adiciona-se a isso a luta pela divisão da sobrecarga da família. Por que não dá para ter só a balança da igualdade no trabalho, mas ao chegar em casa, essa balança explodir com o adicional casa, comida, roupa lavada, filhos bem educados, academia em dia e unhas sempre feitas. Há ainda as que sustentem que a felicidade do casamento está nas mãos das mulheres. Já não tem coisa o suficiente nessa balança?
Muitas mulheres, ao se depararem com essa realidade nova, doida e desavisada (pois por mais que te falem ou que planeje, só ao sentir na pele vai arder), entram em depressão. Algumas se deixam desaparecer (leia aqui meu relato pessoal). Por amor aos filhos e falta de forças para tomar as rédeas do destino novamente e lutar. Mas, não são só as que ficam em casa que carregam esse “fardo”.
Fui a um tempo atrás num evento de uma marca Infantil para jornalistas e blogueiros onde a Diretora Comercial mencionou uma frase em sua palestra que nunca mais me esqueci: “às 19h saio do trabalho e desligo o celular. Das 20h às 22h, que é o tempo que meu filho está acordado e eu em casa, só sou mãe”.
Para essa moça expor isso numa palestra, você imagina a carga de culpa que ela sente né? Não por ela estar errada, até por que não acho. Mas por que, numa gama de escolhas que nós mulheres e mães temos hoje em dia, nenhuma está isenta de prejuízos. E a escolha do saldo é pessoal, não cabendo a ninguém julgar.
Saindo do parâmetro do julgar, essas coisas nos fazem enxergar que a questão está longe de ser o simples gostar ou não de ser mãe. Amamos nossos filhos. Mas as mudanças em nossas vidas são abruptas demais, nossos sentimentos são diversos demais, para que possamos esperar a mesma interpretação padronizada da ponta do iceberg para todas as mulheres.
Seja carregando a culpa da invisibilidade, seja na luta para continuar a vida como ela era, seja na luta para uma nova realidade tão diversa, por mais planejada que a maternidade tenha sido, é algo exaustivo. E leva um tempo.
Vejamos a coisa pelo lado da adaptação. Estamos nos reinventando. Como mães, como mulheres, como cidadãs. As que continuaram suas vidas profissionais, lutando por mais horas com os filhos. As que trocaram o trabalhar fora pelo lar, estão lutando para o reconhecimento deste enorme e dedicado ato como trabalho. As que se reinventaram totalmente, que descobriram como manter seu lado profissional e ainda assim participar ativamente da vida de seus filhos. As que ainda não sabem o que fazer com essa nova realidade, mas que seguem em frente, em busca.
Por mais fraca que uma mãe se sinta, ela ainda é fortaleza. Por que só a forca de uma pedra para aguentar a pressão social que vivemos. Se fossemos areia, como muitas alegam ser fracas, as ondas já teriam nos levado para longe. Mas não. Estamos ali firme e fortes ainda tentando.
Ser mãe exige reinvenção. Ser mãe exige luta interna. Ser mãe exige auto compreensão da nossa essência. Ser mãe é ato puro de amor, mas não padronização de sentimentos e exposições. Ser mãe é amar acima de nós mesmas, tanto  a ponto de nos deixarmos entrar nesses conflitos existenciais.
Mas ser mãe não necessariamente exige o culto a maravilha deste ato. Uma rosa tem beleza, perfume e também espinhos. Você pode amar a rosa, assim como Ciclana ama muito esta flor. Porém você enxerga beleza e perfume, enquanto Ciclana só vê espinhos e talvez um pouco de perfume.
Percebem? É uma visão diferente sobre a mesma coisa.
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3 Comments

  1. Rose Gomes

    21 de fevereiro de 2016 at 20:30

    Achei bem interessante esse post! Fala sobre o que muitas mulheres sentem, mas poucas tem a coragem de falar… Justamente por serem mal julgadas. Nós não temos noção do quanto temos que abrir mão de nossa vida ‘antes maternidade’. É algo realmente difícil, o processo de adaptação e aceitação dessa ‘nova vida’… Não amamos menos nossos filhos, apenas passamos por essa avalanche interna, e precisamos de tempo para nos encontrarmos como mãe, mulher, profissional, etc…

  2. Alê Nunes

    21 de fevereiro de 2016 at 12:25

    Muito bom teu post, coloca a gente para pensar. Eu passei por uma depressão pós-parto, trato até hoje, minha filha já está com 8 anos, e me identifiquei muito, pois é realmente isso, sempre fui uma mulher independente, trabalhadora, dona do meu nariz e de repente tudo parou, foi um choque de realidade enorme e, por mais que eu tivesse lido e soubesse que ia mudar, nunca imaginei que seria tanto.
    Alê Nunes
    http://www.dafertilidadeamaternidade.com.br

  3. Marcela

    21 de fevereiro de 2016 at 10:41

    Falou tudo! É uma questão de ponto de vista.. Entendo perfeitamente essa mãe que disse não gostar de ser mãe, e acho que todas as mães deveriam entender também e não julgar e xingar.. Cada um reage de uma forma às adversidades da vida e se tornar mãe é a mais difícil na vida de uma mulher!

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