Carta aberta à pessoa que tirou a vida de meu pai

Hoje, 3 de setembro, seria aniversario de meu pai. Por isso, resolvi fazer uma carta de perdão à pessoa que interrompeu sua vida. A maternidade me fez mais reflexiva e, organizando os pensamentos, vi que de nada adianta guardar para sempre a amargura da maneira de como sua vida foi tirada. É preciso não só perdoar, mas esquecer e tá aí a difícil arte da vida.

Hoje meu texto é um forte desabafo e crítica ao sistema vigente de “IN”justiça deste país. Filha abre o coração e relata o que sentiu quando a vida de seu pai foi tirada num atropelamento, onde o condutor estava não só embriagado, mas na contra mão e sem carteira de habilitação, em plena manhã de uma segunda feira de abril de 2014.
A justiça é cega, a dos homens é falha, mas a do Universo é irredutível: tarda mas não falha. Enquanto tarda, a injustiça a gente vê solta por aí e isso que incomoda. Mas, como sabiamente Platão, “quem comete uma injustiça é sempre mais infeliz que o próprio injustiçado”. Posto tudo isso, só nos cabe uma coisa: o perdão!

“2 anos se passaram do dia em que você tirou a vida de meu pai.
Como está sua vida agora?
Sei pelos relatos do processo que, após aquela bebedeira de domingo que se estendeu até a segunda feira, você entrou numa contra mão, atropelou meu pai e o arrastou com o carro até a colisão com outro automóvel. Sua punição? 700 reais de fiança e ficou em liberdade.
Mas como se sente ao causar 2 meses de UTI, hemodiálises, sofrimento e resultar na morte de um ser humano saudável e cheio de vida pela frente?
Como se sente de nunca ter ido vê-lo, nunca ter oferecido ajuda, nunca ter aparecido…
Como se sente em viver num país que quem tira a vida de outra pessoa, segue sua vida em paz? Como você!
Como se sente em ter terminado uma vida de apenas 58 anos? De um pai de família? De um avô que acabara de ganhar a primeira neta?
Como se sente em saber que, após a morte dessa pessoa pela sua embriaguez, a irmã dele, minha tia, infartou de tristeza na data de sua missa de sétimo dia?
Como se sente em saber que desestruturou uma família?
Como se sente em saber que eu, que amamentava e doava litros de leite por semana para pré matutos carentes, tive meu leite secado abruptamente por isso?
Como se sente em saber que mal conseguia ir à UTI, não apenas por morar em outra cidade, mas por um marido que viajou muito e ter um bebê de meses no colo, a qual eu não tinha com quem deixar, quando meu marido não estava aqui. Que eu segurava minha filha e pensava: como faço para ir até lá hoje? E, muitas vezes, não via solução. Você não imagina a angústia que é passar por isso!
Como se sente em saber que eu quase entrei em depressão, que não dormi por noites e noites, que me culpei, chorei e me perguntei por que esse mundo é tão injusto?
Independente de como você se sinta, saiba que, antes de entrar em coma, meu pai, o ser humano honesto que você matou, havia te perdoado.
Ele me disse: “já fui jovem como ele”, ofegante, com dificuldades para dizer essas palavras.
Nunca tive a oportunidade de olhar em seus olhos, não te conheço e não sei se é uma pessoa boa ou má. Mas, se te servir de alguma coisa, saiba que você recebeu um perdão, embora nem sequer tivesse se preocupado em procurá-lo para isso.
Saiba também que, na época, me inconformei com as palavras de meu pai. Que eu te odiei muito. É por esse motivo nunca escrevi. Não gosto de expor essas negatividades, mas sou humana! E, se hoje escrevo, é por que não te odeio mais. Eu perdoo também, não por você, mas por mim. Para me livrar desses sentimentos que me circundaram por cerca de 2 anos.
Não sei se quer meu perdão, se tinha interesse no perdão da pessoa que atropelou. Mas saiba que você os tem. E peço que, no mínimo, reflita sobre não apenas suas irresponsabilidades e o que ela causou, mas suas atitudes.

Não desejo a ninguém, nem a você (já que te perdoei), o mal que nos fez!

Hoje você teve sua sentença: o trabalho social! Ah, que beleza! Te perdoar não implica em ser injusta, como nossa Justiça. Tirar uma vida não deveria custar trabalho social, e sim reclusão. Imagino que não tenha tido a intenção de matar, mas você deveria pagar pela sua irresponsabilidade. Isso é viver em sociedade. Com ou sem perdão, eu estou indignada com o que lhe coube ao causar tanta coisa.

A Justiça Brasileira, ahhhh essa eu não perdôo. Não só por mim, mas por outras vidas que podem ser injustamente tiradas do mesmo modo. Por ter uma filha e não ter o sossego de saber que você, Justiça Brasileira, olhará por nós, pessoas honestas e de bem.

Como pode sermos extorquidos mês a mês com impostos abusivos e sermos mais punidos quando pegos numa blitz de bafômetro, pelo consumo de um cálice de vinho, do que essa pessoa foi, ao matar um ser humano?”

Vale a reflexão!

Um beijo, Marrie

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2 Comments

  1. Aurélia

    20 de outubro de 2016 at 21:04

    ????? Acho q eu nunca iria me conformar….mto menos perdoar!!! ?

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