Mãe deve perdoar tudo? Por que decepção dói mais que a raiva, mas nos faz seres humanos melhores, se na hora certa

O que é dito na infância não fica na infância. Isso é fato. Carregamos coisas para o resto da vida conosco.

Por favor leiam o texto até o fim antes de tirarem conclusões precipitadas!

Quantas vezes sua mãe ou pai brigaram com você? Se nada foi grave a ponto da violência, certamente a gente acaba lembrando até rindo. Eu me lembro das havaianas voadoras e, sinceramente, não ficava magoada na minha infância com isso.

Sabe o que me recordo que realmente me magoava? Que me tocava: A decepção! O fato de ver que meus pais estavam profundamente chateados e desacreditados de que eu tinha tomado alguma atitude. Ahhhh aquilo doia. E como!

Pessoas que mais te amam e mais acreditam em você nesse mundo, de repente, ficam desacreditados de você? Ah, isso é algo que jamais se esquece.

Não só na infância!

Somos seres humanos e, partindo dessa simples prerrogativa, erramos, não somos perfeitos. Mas, quando erramos e, além disso, sabemos que aquilo que fizemos era realmente errado e foi descoberto, esperamos uma resposta irritada. Esperamos raiva. Uma resposta quente, que borbulhe o sangue. Não esperamos a decepção. A falta de credibilidade mais em nossa pessoa como pessoa humana. Ninguém perde tempo divagando com o que não vale a pena, certo?

Claro que não gostamos de ver as pessoas bravas, mas às vezes nós sabemos que merecemos uma boa bronca, tendo errado sem querer ou nem tanto sem querer assim. E aquele discurso bravo todo só nos mostra uma coisa: que aquela pessoa ainda se importa, que ela ainda não desistiu de nós.

E após aquela briga homérica, achamos que merecemos o perdão. Afinal, o que fizemos (seja esquecer uma data importante como aniversário, contar o segredo de um amigo,…) começa a ter a sensação de que “nem foi tão grave assim…

Porém, quando ouvimos com aquele tom calmo de verdade o: “não estou zangado, estou apenas decepcionado com você”, ah isso dói! Isso fere mais profundamente do que gritos e palavras tortas, porém aquecidas de algo que é um sentimento que aquela pessoa ainda tem pela gente.  A decepção é fria e parece não nos oferecer o alívio do perdão, nem a possibilidade de dormirmos em paz com a sensação de que seu erro nem foi assim tão grave.

Me lembro claramente de quando era pequena. Sempre fui ótima aluna e tirava boas notas com facilidade e sempre gostei de ler. Lembro quando, um dia, achei que minha vida seria mais divertida se eu não fosse tão certinha e comecei a QUERER ir mal na escola. Coisa de adolescente. Foi na sétima série, fiquei de recuperação de matemática. Estava achando o máximo, estaria quase toda a turma do barulho lá na recuperação, mas já esperava os gritos de raiva de minha mãe, que divorciada, passamos um tempo de crise em que não foi fácil continuar a pagar a escola particular em que sempre estudei e que nunca sequer pensaram em me tirar, apesar da fase ruim financeira que passamos. Mas, ao contrario disso, ela só me olhou com desprezo e disse: “vendi minhas pratas esse mês para pagar sua escola. Que decepção o que me dá em troca”. Baixou os olhos e não me disse mais nada.

Eu não tinha o direito do perdão. Só me senti um lixo humano. Nunca me esqueço disso. Me marcou profundamente. Anos depois voltei a ir bem na escola. Eu superei e quis provar o contrário, mas nunca me esqueci desse episódio.

Há algo de despersonalização, diminuição em receber a decepção ao invés da raiva ou de um ataque de fúria de nossos pais, amigos, familiares. Esperamos receber o mesmo tratamento de TODOS que um pai ou professor para diria a uma criança rebelde, ainda na vida adulta. Esperamos a mão na cabeça e um “siga em frente e não faça mais isso”.

Porém, ficar APENAS com raiva, dar uma bronca ou ficar bravo quando as coisas são graves é o oposto do oferecer amor, gratidão e entusiasmo quando as coisas estão indo bem. Pois isso dá a sensação de que não foi tão grave assim.

Decepção, pode dar um golpe fatal em qualquer relação se não for rapidamente superado. Os verdadeiros amigos respeitam-se, e se que o respeito mútuo e responsabilidade não podem ser recuperados, então também não pode haver o relacionamento.

Nós geralmente não pensamos na raiva como uma emoção respeitosa, mas a decepção nos reduz ao status de irresponsável, inconsequente (veja artigo em língua inglesa). Porém, decepção pode ser uma resposta de amor e carinho às transgressões de uma criança, mostrando a ela as consequências de seus atos, fazendo-a repensar profundamente no que fez. Decepção não é para toda a hora, mas quando algo é sério. Perdão instantâneo pode significar fazer com que a criança não vença ou supere moralmente aquilo de errado que fez e continue com transgressões piores.

Além disso, a raiva, além de ser assustador, coloca uma criança numa posição de maduro o suficiente para ser responsável por seu comportamento não só passado, mas futuro, após as fáceis desculpas.

Óbvio que só pais e mães SANTOS jamais teriam momentos em que o sangue borbulham nas veias pelas malcriações de seus filhos. Mas é importante a reflexão do quando uma coisa é boba e merece uma discussão ou briga e quando a decepção viria para o crescimento moral dessas crianças como pessoas.

Então, nós preferimos raiva ou a decepção? Depende de quem está oferecendo isso…

Como mães, jamais queremos machucar, mas tá aí o porque educar é uma difícil arte!

A decepção mostra que o perdão não será instantâneo, você terá que tomar alguma atitude para ser digno para ser perdoado (link artigo).

Aqui em casa, Clara ainda é muito pequena e não fez nada ainda que decepcionasse. Mas ela faz muitas birras e, após conversarmos, às vezes calmamente outras vezes estando um pouco exacerbada, ela diz: “não vou fazer mais”. Porém, sinto que já banalizou. Ela diz isso e segundos depois está lá, fazendo a mesma coisa.

Entendo que crianças aprendem testando e por repetição. E, meu papel, é dizer inúmeras vezes a mesma cisa até que ela aprenda. Mas eu também preciso saber o momento DO FALAR SÉRIO, que é onde entra a decepção. Por que, em algum momento, ela terá que reavaliar seus atos e fazer algo para retornar ao caminho do bem.

Em ambientes saudáveis, a decepção é acompanhada do incentivo para fazer melhor da próxima vez, juntamente com a orientação sobre como alcançar esse sucesso, sobre como o caminhar de forma a não mais decepcionar as pessoas, sobre como ser uma pessoa melhor.

Ou seja: Mãe deve perdoar tudo? Sabemos que, no fundo, perdoamos! Mas precisamos mostrar que, como seres humanos, também temos sentimentos e isso só conferirá humanidade às nossas crianças!

Um beijo, Marrie

Leia também:

https://www.mamaeplugada.com.br/2016/06/diga-nao-a-adultizacao-infantil/

https://www.mamaeplugada.com.br/2016/04/casais-saudaveis-se-desentendem-sim-inclusive-na-frente-da-crianca/

https://www.mamaeplugada.com.br/2016/02/por-que-bater-na-crianca-e-errado/

 

2 Comments

    1. Mamãe Plugada

      13 de setembro de 2016 at 03:08

      Obrigada, Nathália Pironato❤️

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