Por que tento criar minha filha de forma leve…

Meu coração de mãe sente-se cansado de tanta inversão de valores neste mundo. De ver crianças sendo vistas como mini adultos e humanização ser considerado fraqueza.

 

Me sinto um ET quando simplesmente não entendo doações de roupas de frio sendo retiradas de ação, em um dos maiores frios da capital paulista, deixando muitos moradores de rua morrer de frio para desestimular a favelização.

Fico horrorizada quando vejo uma sociedade olhando para crianças como mini adultos, ou ainda instigando elas a não demonstrem sentimentos, pois isso é uma fraqueza (Oi? Ser “Humano” é Ser Fraco?).

Minha garganta quer berrar quando vejo mãe em puerpério ser criminalizada por fazer um desabafo “diferente” do senso de manada em um simples desafio de Facebook.

Quero morrer  de desgosto quando, em plena era de conscientização de gêneros, ainda vejo mãe cheia de seguidor no Instagram fazendo o desserviço de postar que meninas são chatas, egoístas e individualistas só porque o filho homem não foi aceito para brincar junto. Somos ou não iguais? Ainda mais crianças! Puras ainda! Pelo amor de Deus, não contamine-as com essa maldade adulta!

Fico boba a cada vez que vejo uma criança abandonada no lixo, espancamentos, abandonos, abusos, ou aquele caso de filho implorando pensão ao pai em vídeo virais em redes sociais.

Por que crio minha filha de forma leve...

Prefiro acreditar não ser deste mundo quando ouço nos noticiários filhas planejando assalto aos próprios pais, e ainda ver estes sendo julgados por provavelmente não tê-las criado direito. Já não basta o sofrimento que estão passando? Precisamos abraça-los e não julgá-los!

Meu cabelo ficou em pé ao ouvir sobre menina de 16 anos que é estuprada por 33 homens e, como se não bastasse tamanha insanidade no ato, a sociedade pára para incitar que não houve estupro, já que delegado disse que ela vivia rodada por bandidos e usava drogas. Meu Deus!!! Uma menor de idade, uma menina, não mulher! Se a mulher, dona de seu corpo, quiser e disser que fará sexo com inúmeros caras, ela tem até o direito de organizar a orgia. Mas se ela cansar e não pararem, aí é estupro. Por que seria diferente com a adolescente? Falta noção a uma menina de 16 anos, já diz a lei, em nosso país que se diz democrático, que ela não possui nem maioridade legal. Não é uma mulher. Portanto, como pode ser assim julgada? Permeia-se assim o discurso: culpa dos pais, culpa dos avós, culpa da menina que “quis”…Paralelamente, vejo ainda coisas mais tenebrosas, como: “bandidos são bandidos, claro que farão isso”. Percebem? A culpa fica sobre quem sofre e quem agride, vira banalmente algo comum à categoria a qual pertencem!

Igreja (não direi o nome) que suja nome do fiel no Serasa por não ter condições de pagar o dízimo em um determinado mês.

Mãe que sofreu com separação dos pais ser julgada por mães solteiras só por que ela disse que acredita no casamento “até que a morte os separe”. O contrário também é valido. Mães solteiras massacradas por não quererem manter um casamento de fachada. Cadê o crime em ela acreditar nisso? Qual o crime em não acreditar também? Graças a Deus pensamos todos de forma diferente! Gostaria de ser um avestruz quando vejo social media se aproveitar de desabafo de outra para conseguir uns likes a mais. Agora ninguém pode achar bacana ser casado. O negócio é correr atrás da bandeira do que é mais legal falar! Meu Deus!

E toda essa sujeirada política à tona nesse nosso país? E essa roubalheira em cada obra olímpica superfaturada? E o monte de gente que morre por não ter leito em hospital, num país recordista em recolhimento de impostos? Não vou negar, falo pouco sobre isso, mas estou frustrada também. É frustrante observar que usamos até a “Cores Partidárias” para gritarmos uns com os outros, onde na real, o objetivo deveria ser apenas o menor sofrimento nacional. Triste ver dedos apontados a todo momento, enum espaço onde o amor e solidariedade poderiam prevalecer.

Revista Cláudia - Edição Jul 2016

Revista Cláudia – Edição Jul 2016

O mundo não mudará de um dia para outro. Temos consciência que não podemos sair com jóias onde tem muitos bandidos, infelizmente vivemos num país onde honestos se enjaulam e bandidos estão por aí. Mas procurar “culpados entre os inocentes”não resolve nada. Alias, só aprisiona que vive fora da bandidagem.

A diferença que podemos realmente fazer é um trabalho interno. Calçar os sapatos do próximo antes de atirar milhares de pedras. Ler todo o texto antes de detonar o escritor. Colocar-se no lugar da mãe antes de julgá-la e, quem sabe, dar palavras que ajudem-na a ser uma mãe mais tranquila em relação à maternagem dela. Fico frustrada com o desejo latente de estarmos SEMPRE inabalavelmente certos!

É desanimador demais ver que pessoas de todo o mundo ainda são perseguidos por tentarem ser autênticos. Por aceitarem-se como são e sofrerem com o ódio da manada. Fico triste que o atacar seja sempre bem visto, tomar uma forma de “poder”, e ainda fazer com que esse poder satisfaça o ego das pessoas.

O “julgar” parece estar sempre no auge, seja nas ações dessas pessoas que causam esses males de forma direta, seja nos argumentos farpados dos “promotores de mídias sociais”, que não calçam os sapatos do próximo mas sentem-se no direito de detona-los! Culpam até as terceiras gerações dos culpados e até as vítimas não são mais imunes!

Mas, honestamente, nossas frustrações não são úteis a menos que eles nos motivam fazer algo melhor, né? Aí que entram nossas ESCOLHAS!

Eu, por exemplo, escolhi falar abertamente das dificuldades reais do mundo materno, de forma a abraçar pessoas que, mesmo pressionadas em serem perfeitas, busquem consolo por não conseguirem ser, basicamente por SEREM HUMANAS.

Nossas escolhas são tão importantes. Como muitos de vocês, estou perfeitamente ciente de como minhas reações em relação à forma que eu enxergo o mundo irá impactar diretamente a forma que minha filha vê as coisas.

Eles vêem o que vemos. Eles ouvem o que sentimos. Eles nos espelham!

E eles são o futuro. A forma como eu vejo o mundo influencia na forma como minha filha ve o mundo e, no futuro, ela pode conviver com seu filho e terem as formas de ver o mundo também modificadas! Estão percebendo a responsabilidade?

Qual a reflexão que queremos passar para eles,  especialmente quando a vida parece tão cruel?

Apesar da linha autoritária ser tão contrária, quero criar minha filha para que seja leve, suave. E enxergue  a luz, e não procure a escuridão!

Olho para ela como ser única e em formação que é. Como uma menininha que desconhece as malicias do mundo e eu estou ali para protege-la. Ensino-a a respeitar os limites que seu corpo lhe coloca. Não beijar e abraçar, que não o faça. Cumprimentar já é respeito! Não obrigo a pedir desculpas na hora da raiva, mas ensino-a nos fundamentos do bom dia, boa tarde, muito obrigada, por favor, com licença, quando ela está tranquila e embasada no amor. Mesmo em formação, e exatamente por isso, não fazendo por ela o que ela pode fazer sozinha. Afinal ela crescerá e será meu presente para o mundo.

Não quero saber se para ser uma renomada executiva, ela precise quase ter comportamento quase psicopata e não expor seus sentimentos e não possa permitir-se ficar triste ao demitir uma fábrica toda de uma vez. Quero que ela tenha coragem de se ouvir e de se aceitar como ela é. Talvez aquilo não seja para ela. Talvez seja. Que saiba lidar com isso com humanidade.

Em um mundo cheio de arestas e cantos afiados, eu quero poder contribuir com uma ser humaninha gentil e amável. Trabalho duro para isso. Educar não é fácil!

Num mundo de escuridão, eu quero que ela sempre consiga enxergar a luz, e quero ainda estar junto para poder guiá-la no otimismo.

Quero que tenha noção da injustiça, mas que não trave diante dela. Quando sentir medo, quero que saiba que medo não é luz. Que medo trava, imobiliza. Quero criá-la com a autoconfiança de não se deixar travar diante do medo dos julgamentos do mundo que a rodeia. Jamais agradaremos a todos. Mas precisamos agir de acordo com nossos valores.

Quando ela se sentir impotente, quero poder estar ao lado dela para dizer que não podemos abraçar e resolver o mundo, mas SIM  podemos fazer nossa parte e que ela é, pelo menos alguma coisa.

Quero criá-la de forma a não usar os outros como escada. Ensinar que EGO não leva ninguém a lugar nenhum. Tá aí uma enorme lição de vida:  O que pode ser mais tentador do que “garantir o seu”, mas esquecendo-se de que  aquelas milhares de pessoas passando fome também fazem parte da mesma da sua mesma humanidade?

Minha filha, por favor, seja humana!

Aliás, nada como a lei da ação e reação. Se nós mães, pudéssemos nos unir mais e formar-se um rebanho enorme de crianças SUPER PODEROSAMENTE HUMANAS, poderíamos dizer que  nossa missão no mundo estaria muito provavelmente cumprida, né?

Já pensou que trunfo na maternidade deixassemos de discutir quem andou ou falou primeiro, se parássemos de nos meter e julgar a vida alheia e passássemos a olhar para este time de campeões mirins?

Eu quero que minha filha respeite as diferenças.

Eu quero que ela saiba que o caminho para a paz é pavimentada com amor. O amor não é a solução. Mas a forma de se chegar lá!

O mundo precisa de nossas crianças sendo criadas no amor. Na suavidade. No exemplo pautado na luz!

Vamos fazer nossa parte? Quem tá comigo nessa?

Por Marrie Ometto #reflexoesplugadas

Sou boa mãe? Por que crio minha filha de forma leve...

 

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