Morar no interior é ótimo, mas tem panelas que perduram até nos dias de hoje.
Eu amo Piracicaba. Nasci e cresci nessa cidade correndo nas ruas, comendo peixe fresquinho na Rua do Porto, contemplando essa beleza de rio e tendo o privilégio de estudar na ESALQ, campus da USP que é a maior Universidade em m2 da América Latina. Mas tem uma coisa aqui que não muda: o fato de serem valorizados não os bons, os que trabalham, mas os que estão ali há anos, os “de linhagem”, uma patota que chamo de Senhores de Engenho.
Me formei em Economia em Piracicaba-SP e fui morar na Capital paulista, onde fiquei por 10 anos. Fui muito bem recebida, nunca perguntaram de quem eu era filha, se tinha amigos X, Y ou Z. Eu conquistei meu espaço lá por suor. Por trabalho, Por competência. Não por “linhagem”.
No meu caminho de volta, busquei proximidade com a família, com a essência mais calma e distante dos grandes centros urbanos.
Mas não me recordava de algumas situações peculiares daqui e, ao voltar, constatei que não mudou.
No retorno, eu não me lembrava sobre como era importante para as pessoas a família que você veio, o seu sobrenome, de que grupinho social você se enquadra ou ainda se você puxa saco de fulano ou ciclano.
Não que família não seja nada importante, ela conta sua história. E o sobrenome é de certa forma referência. Mas em dias atuais, isso mover uma cidade me deixa um pouco perplexa.
É tão forte isso que, algumas vezes, acaba falando mais alto no ponto de vista de qualidade, de honestidade… E o seu ser muitas vezes é ditado não apenas pelo seu ter, mas também pela sua “linhagem”. Aí o cara mais conhecido – o “melhor” profissional – nem é o melhor, é o mais enturmado na patota, sabe?
Sim, tem patota, e ela muitas vezes é centenária. São os “colunáveis”. E precisa de muito puxa-saquismo para entrar nela, coisa que eu literalmente abomino e não acho que vale o esforço. Para constatar, basta pegar as mídias impressas locais e se deparar com “sempre os mesmos” e, se você sai nela, o povo diz “tá chic, hein?” – como se tivesse tido a honra de se elevar, pelo menos um pouquinho, ao mesmo degrau dessa patota. Tá aí uma coisa que me esforço para entender. Por que isso?
10 anos se passaram do dia em que deixei minha cidade interiorana – para residir na cidade do país que mais acolhe pessoas, que dá oportunidade a quem tem vontade de ralar – imaginei que voltaria para lugar mais harmonioso de se viver. E que seria recebida de volta com a mesma alegria que fui agarrada qdo cheguei na capital paulista. Afinal, não só o tempo havia passado, mas a cidade crescera (e não estamos falando de uma cidade pequeníssima para comportar essa estrutura feudal).
E eis que me deparo com muito do jeitinho de quando deixei a cidade. E aí veio a gratidão de eu poder ter tido a oportunidade de ser reconhecida como referência no que faço, sem precisar ter puxado saco de ninguém. Sair foi preciso.
O povo interiorano é maravilhoso. É calmo. Tem garra. Tem essência simples. Alma bela. Mas, mesmo cansado do status quo, muitas vezes não luta contra ele e mesmo com o tempo passando, a situação de feudo muitas vezes perdura. Por que será?
O Senhor de Engenho não precisa dominar o feudo pra sempre. Vale a reflexão.
Por Marrie Ometto
Piracicabana, longe da patota.
Veja no instagram, quantas pessoas disseram viver no interior e sentir a mesma coisa que relatei:
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Emanuel
9 de janeiro de 2022 at 18:31Dei muita risada com seu artigo e gostei muito. Sou da capital e aos 20 fui morar no interior para estudar. Vi muito do que você falou, mesmo a cidade sendo enorme, terra do atual presidente e último lugar do país a abolir a escravidão, imagina? Fiquei 10 anos lá e, inclusive, meu sotaque hoje é do interior. Não tenho como negar minha vivência. Eu costumo dizer que tem dois tipos de pessoas lá no distrito: as que amam e as que abriram os olhos.
Marcelo Tavares
18 de julho de 2019 at 07:42Hoje vivo o contrário sou de São Paulo capital, e conheço diversas pessoas que trabalham em profissões diferentes, e estou para ir morar no interior. Concordo com o artigo que São Paulo é uma terra de oportunidades mesmo, mas aqui você também tem status, por algumas peculiaridades e no caso são o quanto de poder financeiro sua família ou você tem, aqui muitas vezes você é medido pelo carro que você tem, pela sua vestimenta e até mesmo no quanto você esta infiltrado entre os grandes. Então acho que o defeito do interior é este que foi mencionado no artigo e comentado por muitos e na capital também existe a vantagem para este grupo que mencionei. Acredito que este é um problema que existem em todos os lugares. Infelizmente.