Por mais recompensadora e maravilhosa que seja, maternidade em si é um enorme desafio e qualquer mãe sabe disso, nem que seja lá no íntimo.
Algo tão natural, assim como o entendimento de que nada é 100% bom ou 100% ruim, né?
Não exatamente…
Muitas se negam a admitir ou até mesmo aceitar, diante da imposição social de que tudo é muito maravilhoso, que sentir qualquer coisa que não seja suprida pelo amor incondicional é algo explicitamente inaceitável. Além disso, esperam que você seja “uma mulher forte” e mantenha-se alicerce de seu lar, de sua vida, da vida de seus filhos, marido e que continue tocando tudo com a mesma forca que fizeram outrora.
Filho é para a vida toda! Status materno também.
Vejo muito por aí uma certa pregação de que a gente não pode “se anular” após a maternidade. Concordo. Porém, não aceitar a anulação não significa manter tudo como era antes, até porque a própria mulher, agora mãe, já mudou. E o que mudou merece ser visto de uma outra forma. Um quadrado passa a não mais preencher a fôrma redonda, não sem adaptações ou que as arestas sejam cortadas e encaixadas de outra forma.
Não se anular, não se deixar tornar invisível trata-se de um árduo processo de digestão da nova realidade, que é maravilhosa por um lado, mas um tanto quanto obscura de outro e tem período de tempo diferente de processamento, variando de pessoa a pessoa. O maior exemplo disso é a apologia de que o corpo feminino tem que estar melhor, ou igual, poucos meses após o parto, caso contrario é desleixo.
Gente, quando ouço esses disparates, meus longos cabelos arrepiam, como se tivesse tomado um choque com tamanha insensibilidade que vem, na maioria das vezes, de outras mulheres.
Por mais que você, querida leitora, tenha esse exato pensamento, peço encarecidamente ter a compreensão de no mínimo, fazer o exercício de olhar por outro lado: nasceu uma mãe, metamorfoseou a mulher e mudou completamente suas prioridades, muitas vezes arrancando-lhe chão e rumo por um tempo, exatamente pelo motivo de que falar com realismo é tabu e ela estar esperando aquela maternidade plácida e romântica.
Entendo que algumas conseguem fixar suas prioridades antigas como foco primordiais. Muitas vezes trabalham com isso, é um ganha pão, sustento familiar. Porém, assumir como desleixo algo tão natural, quanto uma fase de adaptação a essa metamorfose, é algo no mínimo deselegante para mulheres bem informadas.
Quem te disse que após ser mãe seu casamento ficaria exatamente igual ou melhor, “segurando marido”? Que sua carreira teria a mesma importância? Que sua vida social será a mesma e os amigos compreensivos? Que seu trabalho continuaria tendo o mesmo sentido? Ou ainda, quem te disse que seus sonhos seriam exatamente os mesmos?
Se alguém te disse isso, ou não foi completamente honesto com você ou esqueceu de contar as consequências de um pequeno segredinho que, com o despertar de um amor que só conhece quem vive, como o de ser mãe, impossível que as antigas prioridades no mínimo não se balancem, caso não mudem!
Alguém ainda pode dizer, vendo alguém numa situação de desencontros: “Ahhhh…mas você nao se encontrou sendo mãe…”…NÃO GENTE, PÉSSIMA ABORDAGEM!!! Afinal o “se encontrar” não está sendo natural, está sendo cobrado e pior: esperado. O se encontrar ou não como mãe tem muito a ver do que a sociedade espera de você neste papel.
Você tem que se reencontrar como mulher, como amante, como profissional, como amiga, como algo que te faça feliz e TAMBÉM como mãe.
Por favor, a abordagem “nasce cresce, se reproduz e morre” só se aplica às aulas de ciências do colégio, não há humanidade. Para nós, seria “nasce, cresce, se reproduz, tem altos, tem baixos, se reinventa, torna a reinventar-se de quantas vezes forem necessárias nesta jornada para aí sim morrer, após cumprir seu papel aqui neste mundo”.
Uma pesquisa entrevistou 500 mulheres nos EUA exatamente sobre este assunto e pediram a elas que citassem uma coisa na vida delas que consideravam um grande desafio na maternagem. Olha que interessantes os 10 principais tópicos citados:
1. Sentimento de sobrecarga excessiva, seja fisica ou emocional;
2. Dever de ter sempre muita paciência;
3. Saber lidar com birras e mau comportamento dos filhos;
4. Equilibrar a vida familiar, profissional e domestica, mantendo um tempinho para si;
5. Preocupações com os filhos a toda hora: “esta agasalhado?”, “Se perdeu?”, “Que horas chegará?”, “Esta se alimentando bem?”, “Esses amigos são boas companhias?”, “Será essa escola a melhor opção para ele”e etc, etc, etc…por toda a eternidade preocupações infindáveis!
6. Pequenos desafios do dia a dia com o filho, como alimentação saudável e desenvolvimento;
7. Privação de sono;
8. Sentimento de distração e perda de memória;
9. Sentimento de estar isolada e solitária;
10. Culpa pelo julgamento alheio em relação a sua maternagem.
Elas citaram também hostilidade no relacionamento, saúde e estética corporal, mas não entrou nas dez mais citadas preocupações das mamães entrevistadas.
Em quantas delas você se identificou?
Então temos muito mais em comum do que imaginamos!
E para quem se encontra nesse processo de auto conhecimento pós maternidade, só desejo “força” e “fé” para que essa aceitação e reencontro com os novos “eus” seja breve, tranquila e feliz! Caso esteja muito difícil, não hesite em procurar ajuda! Isso é muito comum, embora o tema pareça ser tabu!

Foto: Lidi Lopez

Maternidade como elevação espiritual? | Mamãe Plugada
28 de abril de 2016 at 07:58[…] A mulher é metamorfoseada a mãe. Ela ainda é uma mulher, mas não dá para ignorar que mudou. Assim como a borboleta ainda é a mesma lagarta, mas em forma diferente. […]