Paraísos e dores da amamentação

A amamentação em si já é uma luta, e quando temos êxito, tá longe da jornada terminar com chave de ouro.

Mesmo num momento de profunda conexão, eu sinto solidão e muita incompreensão.

A dor não termina após a apojadura,
A batalha não termina no “conseguir amamentar”.
É uma luta diária amamentar com tantos julgamentos, palpites e falta de empatia ao redor.

Eu sei que nada se compara à conexão mãe e filho, o doar-se para o alimento, de corpo e espírito. Eu amo amamentar.

Mas amamentar muitas vezes dói na alma, mesmo quando ela já é um sucesso físico. Quando o corpo produz adequadamente o alimento e não existem mais feridas.

Digo da dor do não entendimento. Do aprisionamento. Da falta de empatia.

Tem dias que o bebê quer peito o dia todo. Aí uns dizem estar chupetando. Outros que você não tem leite o suficiente/ ou que ele é fraco. Aqui isso não acontece, pois tenho de monte. Mas palpites não faltam: “não morde?”, “até quando?”,…

Dói cobrarem da gente um ir e vir que não nos pertence mais. Dói o não ter por onde delegar isso para descansar, e quando reclamamos, dizerem que “tivemos o q pedimos” ou que estamos de “Draminha”. Falta empatia, em especial dos homens, que nunca saberão a doação que é o amamentar. E, para muitos, como não dói neles, chega até a ser mimimi.

Eu amo amamentar. Amo essa conexão nesse momento, que considero magico. Não falta leite, e agradeço muito. Mas como dói ser só minha a função do acalento, a exaustão do momento e a incompreensão do meio.

Conseguir amamentar é só uma parte da batalha. O que vem pela frente, é mais uma luta muitas vezes bastante solitária.

E a fase do surgimento dos dentinhos, dos saltos de desenvolvimento?

Nesses dias, a amamentação fica ainda mais desafiadora, pois o peito não é só alimento, é a segurança e o aconchego para que o bebê perceba que está tudo bem, que já vai passar.

Amamentar – ser alimento e segurança –  exige tempo, paciência e persistência…

Fases em que o bebê passa por dificuldades inerentes ao desenvolvimento são super desafiadoras pra ele, mas difícil também para quem está ao redor, que não dorme e ainda precisa ser suporte emocional à essa nova vida  ?. Já pararam para pensar que essa mãe pode ter a criança interior ferida também? E que é cobrada enormemente por ela e pela sociedade?

Segundo Laura Gutman, autora de Mulheres Visíveis, Mães Invisíveis, em tribos antigas, havia uma comunidade de apoio à recém mãe, para que essa criança recebesse suporte nas fases desafiadoras, que hoje, com tanta competitvidade e corrida contra o tempo, ninguém se lembra mais. Virou cada um por si. A recém mãe? Puérpera? Se bobear querem que continue programando-me cardápio da semana, fazendo a lista de compras, cuidando das Finanças, dos afazeres e etc, etc, etc que vcs conhecem de cor.

E onde então entra a força para que possamos ter o emocional para dar o suporte, para que outra criança não repita, quando crescer, os mesmos erros que os nossos? ?

Aproveito para fazer um gancho nesse mês da amamentação, deixando um trecho da Laura Gutman:

“a lactância é uma continuação e desenvolvimento dos aspectos femininos mais terrenos, filogenéticos. Para dar de mamar, as mulheres deveriam passar quase todo o tempo sem largar sua cria, mergulhadas em um tempo fora do tempo, sem elaboração de pensamentos sobre tudo o que permeia à casa, sem necessidade de se defender de nada nem de ninguém, mas apenas mergulhadas em um espaço imaginário e invisível para os demais. Isto é possível quando compreendem que a psicologia feminina inclui um profundo vínculo com a Mãe Terra, que ser uma com a natureza é intrínseco ao ser essencial da mulher, e que, quando esse aspecto não se torna evidente, a lactância simplesmente não flui (não só a lactância, mas toda paciência necessária no maternar). As mulheres não são muito diferentes dos rios, dos vulcões e das florestas. Só é preciso preservá-los dos ataques.”

Ser preservada dos ataques para ser suporte emocional de um ser que constituirá o amanhã. Lindo, né? Mas tão distante…

Por um mundo onde mulheres se abracem mais e homens sejam mais empáticos. Um jato de humanidade e colocar-se no lugar do outro, em especial quando se trata de uma nova vida – é urgente.

Um beijo, Marrie

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