Como criar numa era do “show do eu”?

Como mudaram as relações nessa era de exibicionismo em redes sociais, onde os likes passaram a valer mais do que um contemplar o luar com alguém que se conhece profundamente a alma.

“Brincadeira de roda, pega pega, amarelinha.

Bicicleta na rua, turma em roda, mãe gritando no portão que o jantar está na mesa.

Olhares se cruzando, amigos que conhecem a alma, solidez e proximidade de relacionamentos.

Paciência na paquera, espera para ligar de volta, agonia gostosa de viver.

Telefone toca, banho demorado, troca de roupa e sai para ver as estrelas.

Essa foi a minha era, com acesso tardio ao celular e à internet.

 

Hoje em dia…

iPad na mão, escola de manhã, judo, Ballet, inglês, natação e chinês a tarde.

Tempo escasso em casa, pouco diálogo, muito YouTube e vídeos educativos. Mãe pede que desliguem os aparelhos que o jantar está na mesa, ufa, uma pausa para essa tecnologia toda.

WhatsApp subindo, grupos apitando o dia todo, afinidade surgindo com pessoas que sequer viu na vida.

Facebook mostrando as pessoas como elas mostram ser, um avatar apenas. Quem tem tempo de criar uma nova relação em que se conhece a alma do outro?

Conhece na balada, já vão embora juntos e no dia seguinte o orgulho de quem envia uma mensagem primeiro. Ninguém envia.

“Ah não era para ser”, “bora para outra”, “fila anda”, “o cara é amigo daquela megera do Facebook”, melhor afastar, o mundo é cheio demais para perder tempo com quem nem sequer teve tempo de conhecer…

E assim segue a geração “Show do Eu”, onde não mais valem as trocas de olhares, o toque da brisa do mar ou o brilho das estrelas juntos. Não mais tem valor a calma do conhecer profundamente o outro. Valem os likes numa foto tipo tapa sexo, os compartilhamentos numa exposição do filho no penico ou ainda os views mostrando partes num parto, expondo uma vida íntima que muitas vezes nem é bem aquela.

E assim as pessoas abrem as portas de suas vidas e vivem um avatar que pode ser que nem era aquilo que queriam ser. Mas é o que esperam?

Sou super defensora de que cada um faz o que quer com seu corpo, expõe seus dependentes (filhos) da forma que preferem, falam o que quiserem de suas vidas.

Mas a reflexão é que, na era do “show do eu”, é capaz da platéia, leia-se Facebook, Instagram, Pinterest, YouTube, Twitter e afins, conheçam mais cada um de nós do que nossos entes mais próximos.

Em era em que likes valem mais do que sentidos, como ficam a solidez das relações? Será que alguém terá tempo, em meio a tantos cliques, compartilhamentos e gente comum ditando o que é politicamente correto de se fazer, as pessoas terão tempo de se conhecer – e de se gostar – profundamente?

Como criar nessa era, onde leigos tornam-se PDH em política, economia, partos, aleitamento materno, sem sequer citar alguma fonte para o que repassam?

Tudo é tão rápido na era do Show do Eu, que não é preciso esforço, pesquisa, estudo, para se ter as tão almejadas caricias para o ego. É preciso um Avatar forte. E vai de encontro com o que mais prezo nessa vida: as relações de valor, o assumir quem somos e nosso lugar nesse mundo, com humildade e respeito ao próximo e ao trabalho que eles tem.

Eu mesma, mais contaminada que minha filha de 2 anos nesse “Show do Eu”, fico mentalmente me travando, afinal, é preciso nós, exemplos para eles, estabelecer um limite não só do acesso à tecnologia, mas do que mostrar e o que não mostrar da vida pessoal. Tem coisas que só quem é do círculo afetivo deve saber. Assim ainda se torna necessária a criação de círculos afetivos…

Estaremos nós prontos para lidar com essa nova realidade? Conseguiremos desacelerar para ao menos tentarmos conhecer melhor uns aos outros nessa era tão veloz?”

Por Marrie Ometto #reflexoesplugadas

Citei a Geração “Show do Eu” em homenagem ao livro de Paula Sibilia, dica de leitura!

 

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