Crianças pequenas não são egoístas, não obrigue a emprestar o brinquedo! Eles podem estar precisando dele!

Vamos ter a empatia para enxergar através dos olhos das crianças e educa-las sim, mas de uma forma mais amorosa e menos imposta? Segundo Dr. Carlos Gonzales, crianças até mais ou menos os 4 anos de idade não tem noção do que é emprestar. Pelo menos não no sentido que enxergamos, agora adultos, da palavra. Quando chegamos a um parquinho e seu filho está lá, agarrado ao amado carrinho, feliz e brincando com ele e chegam as crianças, querendo aquele mesmo carrinho que ele está brincando, é o mesmo que alguém dizer a você: “Dá a chave do seu carro para seu amigo dar uma volta”, naquele momento em que você precisa urgentemente dele para não chegar atrasado no trabalho.

 

Até por que, até os 3 anos, mais ou menos, ou até a criança disser “Eu” e não “a Clara”(como minha filha Clara se intitulava), ela ainda não tem a noção de onde acaba o ela e começa o outro. Esse é um motivo pelo qual obrigar a emprestar não é a mesma coisa da nossa ótica e em relação a ótica de uma criança.

Vou contar uma historinha:

criancas-pequenas-nao-sabem-emprestar-e-tudo-bem-nisso“Clara e o seu casamento. Ops, Catavento. Tô falando igual a ela já, rsrsrs. Ontem ela quis levar o bendito para a escola, mas não queria emprestar, mesmo depois de muita conversa. Agora ela diz “tá cumigo, Mamãe, é minha vez”, mas a vez dela se estende por todo o dia ?. Eu sempre digo, “se vc não está conseguindo emprestar, então guarde!” ou ainda “se o amigo não quiser emprestar o dele, nem me venha chorar. Vc não emprestou o seu!”. O fato é que a gente fala, toda a hora, todo o santo dia, é cansativo, mas assim que eles aprendem. Nos nossos exemplos, mas também nas repetições de discurso. Bom dia!”

Esse é um exemplo da pequena Clara, de 2 anos, na escolinha, onde ela pode levar um brinquedo, se assim desejar, mas a própria escola combina que, se ela não estiver conseguindo dividir,  a criança deixa o brinquedo na bolsa.

Claro que houveram outras vezes.

criancas-pequenas-nao-sabem-emprestar-e-tudo-bem-nissoEm um Resort, onde passamos as férias, na brinquedoteca, lá estava Clara tentando subir no escorregador com sua boneca. Desde antes de sair do quarto, ela me dissera que levaria a boneca para escorregar. Haviam muitas outras crianças maiores brincando. Elas mostraram interesse na boneca que Clara tinha nos braços, mas ela aprendeu na escolinha a não ceder quando ela precisa da boneca, pois o mundo não é assim. Teremos que aprender a lutar pelo que é nosso, pois o mundo tentará nos arrancar a todo o momento. O que não quer dizer que não podemos partilhar, quando assim pudermos, ou ate doar. Mas para isso, a gente precisa não precisar de tudo aquilo que estamos doando ou partilhando.

Voltemos à brinquedoteca. Clara precisava do afago daquela boneca e ela disse NÃO. Eu combino com ela sempre, antes de sairmos, que ela não é obrigada a emprestar se ela precisa ficar com aquele brinquedo. Mas que também não queira o do amigo. Ou ainda, peço para ela guardar comigo o que não quer partilhar, mas mostro o quanto é mais gostoso brincar em conjunto. Digo, em conjunto. É bom enfatizar isso.

Pois quando o NÃO veio, a menina mais velha (deveria ter uns 5-6 anos) me olhou, esperando que eu obrigasse Clara a emprestar. Eu, ao contrario, pedi que se ela não queria dividir, que me entregasse para guardar. Ela não quis, disse que estava com ela e queria brincar. Realmente, ela levou a boneca lá por que queria brincar, assim como quando vou ao trabalho com o meu carro eu realmente preciso dele e, naquele exato momento, não posso emprestar. Então, empaticamente, deixei. Pelo menos até o momento que eu veria que ela não precisava mais, aí eu mesma iria ali, mostrar como é gostoso brincar em grupo.

Porém, a amiga, vendo minha decisão de não intervir, tenta de novo. Vai lá, puxa o cabelo da boneca, fala que vai só fazer carinho, tenta de novo pegar. Clara se irrita, chora. Eu pensei em tirar o brinquedo da cena, Clara chorou mais ainda. Fez do meu momento um inferno. Não por mim, mas por ela, dei a boneca. Ela queria brincar e até agora não havia conseguido. Disse para a amiga “olha, daqui a pouco ela empresta. Agora ela quer escorregar com a boneca, um de cada vez, tá bom?”.

A menina parecia ter entendido e subiu no brinquedão. Estava com outras amigas da sua idade lá. Clara começa a subir com a boneca a tiracolo, naqueles brinquedões enormes de lona, que, ao fim, tem um escorregador.

Quando finalmente ela chega no final, é empurrada pela “amiguinha mais velha”. Dei um grito de desespero: “Claraaaa”. A menina logo em seguida disse: “Não fui eu!”. Eu nunca disse que fora ela, mas crianças se entregam. O brinquedão era todo estofado, mas a altura não era pouca. A monitora correu socorrer, já que entrar naquele brinquedo não era fácil, iria me enroscar toda.

A mãe da menina estava lá, não disse nada. Eu também não disse. Não sei qual a visão dela de mundo, talvez ela tivesse achado errado eu não obrigar Clara a ceder o brinquedo e compreendo que essa empatia pelo olhar da criança é algo novo e não muito disseminado.

Se ela intervisse, talvez antes do acidente eu falaria para Clara emprestar e ela mandaria a menina dar um tempo para a Clara. Após o acidente, seriamos nós duas leoas, cada uma defendendo sua cria, o que não levaria a nada. Já estava feito e ela viu. Peguei a Clara e fui embora.

O fato é que toda mãe vive vendo o filho pequeno não querendo emprestar quase que diariamente. Talvez não com um final tão trágico. Mas todos os dias vemos crianças tentando arrancar brinquedos de outras, um “é meu” para cá, outro “é minha vez” ou “eu quelo” para lá e mães, cada uma defendendo a cria oposta: “Filho, empresta a bola para o amigo”. “Chiquinho, espera o Joãozinho emprestar, toma, pega seu brinquedo”.

O fato, pelo qual escrevo este post é: Serão mesmo eles egoístas, seremos nós adultos mais generosos que as crianças ou simplesmente os brinquedos delas não nos interessam?

Vamos olhar pela ótica do adulto. Você está no parque e seu filho pequeno pega seu celular para assistir Peppa Pig. Você olha para ele, diz que estão lá para brincar e o encoraja a ir ao escorregador. Quando estão conversando sobre ir ao escorregador, chega uma amiga que esta sempre no parque, eles se abraçam, e seu filho dá o celular para ela, que sai correndo com o objeto, toda feliz. Que lindo, seu filho emprestou!! Mas e você? Quanto tempo você deixa seu Iphone de ultima geração nas mãos da outra criança? Aposto que não dará 1 minuto e já estará lá, tentando recuperá-lo, rsrs!

Uma citação do Dr Carlos Gonzáles é maravilhosa:

“É necessário colocar as coisas em perspectiva. Imagine que é você quem está sentada num banco do parque a ouvir música. Ao seu lado, sobre o banco, está a mala sobre um jornal dobrado. Nisto aproxima-se um desconhecido, senta-se ao seu lado e, sem dizer palavra, começa a ler o seu jornal. Pouco depois deixa o jornal (aberto e atirado para o chão!), agarra na mala, abre-a, olha para o seu interior… Será que você  saberia partilhar? Quanto tempo esperaria para dizer duas verdades ao desconhecido ou para agarrar na mala e sair a correr? Se visse passar um policial ao longe, não o chamaria? Imagine agora que o polícia se aproxima e lhe diz:

– “Vá lá, dê a sua mala a este cavalheiro ou aborreço-me. O senhor desculpe, mas esta senhora não sabe partilhar… Gosta do telefone? Telefone, telefone para onde quiser… A senhora cale-se, se continua a protestar, vai ver…”

A nossa disposição para compartilhar depende de três fatores: o que emprestamos, a quem e durante quanto tempo.

(…)

Claro que, do ponto de vista de um adulto, qualquer criança de dois anos, indefesa e inocente, é um “amiguinho”. Mas quando se mede menos de um metro, um menino de dois anos é um desconhecido e pode mesmo ser “um indivíduo com intenções suspeitas”.”

 

 

Portanto, sigo sem regras prontas, sem ditos e sem manual. Sigo meus instintos. Conheço minha filha e sei quando ela não precisa daquele objeto. Várias vezes, depois de ela ter perdido o interesse no brinquedo, que muitas vezes é um objeto de apego, eu disse: “Agora vamos brincar juntos?”, ou “Agora um de cada vez” e ela super topou. De boa. Por que a necessidade dela por aquilo havia passado, não por que estivesse “menos egoísta”.

Meu papel é mostrar a ela, diariamente, o quanto o valor das coisas não materiais são importantes e, estar ao lado de amigos é muito mais importante do que possuir algo material que pode ser substituído ou reposto. Que amigos não são substituíveis, como os objetos. E que brincar junto é uma delicia. Meu papel é falar, mas essa conscientização só chega plenamente lá pelos 4 anos. Então, por hora, eu sigo com meus discursos, mostrando e explicando, mas sobretudo, respeitando! Depois dos 4, quando ela tiver consciência disso, meu discurso será outro.

Um beijo, Marrie

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809 Comments

  1. Juliana Carvalho

    13 de abril de 2017 at 17:42

    Ótimo texto!! Penso da mesma forma. Amigas Edilene Felix e Nanda Mattos leiam essa matéria bem interessante.

  2. Ramon Kessen

    13 de abril de 2017 at 15:45

    A matéria não é “boa” pois é cheia de conceitos do senso comum. A Mamãe plugada não é uma estudiosa do assunto, conhece a criança do ponto de vista de mãe. Ao incentivar o egocentrismo presente numa das fases do desenvolvimento infantil, vc a torna um adulto egoísta e individualista. É preciso entender o desenvolvimento infantil pela ótica científica com profissionais qualificados (psicólogos, pedagogos, etc)

    1. Mamãe Plugada

      13 de abril de 2017 at 16:47

      Apesar de ser economista (formada e pós graduada pela USP), eu estudo psicanálise (curso de mais de 360 horas), por puro hobbie, como também Antroposofia. Também busco na maioria dos meus textos linkar pesquisas de renomadas instituições, se você me lesse a algum tempo saberia. Entendo que precisamos, principalmente na primeira infância, enfatizar a segurança da criança, inclusive a emocional, não o egocentrismo. Uma criança muito boazinha, como o senso comum quer impor, sofre. Respeito você discordar de um ponto de vista meu, mas discordo de dizer que não me atualizo de outras visões. Um abraço.

    2. Ramon Kessen

      13 de abril de 2017 at 17:16

      Mamãe Plugada , me desculpe, pois não tinha esta informação sobre seu curso de Psicanálise e Antroposofia (mesmo que por puro hobbie). Só disse que não era uma estudiosa no assunto pois não tinha essa informação. Como educador e conhecendo o desenvolvimento humano pela ótica de estudiosos como Vygotsky, Piaget, Galahue, etc, acho interessante esse conhecimento e fico feliz em saber que busca sempre se atualizar. Como sugestão, seria interessante colocar essas informações na sua página. Mais uma vez me desculpe e um forte abraço.

    1. Camila Fagundes

      13 de abril de 2017 at 23:12

      Perfeito amoor! Nunca pensei nisso!

  3. Antoine D Almeida

    13 de abril de 2017 at 12:14

    Nossa, leiam esse texto. É longo mas vale a pena.
    Cláudia Rangel D’Almeida Dos Santos Rafael Bomfim de Souza Priscila Dayube Gisele Azevedo Priscila Rosa Priscila Barros

    1. Priscila Dayube

      13 de abril de 2017 at 16:09

      Ja tinha lido um texto falando sobre isso e achei super interessante.

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