A maternidade não é um comercial de margarina. As coisas não são perfeitamente encaixáveis: a mãe está se adaptando, o casal tem sua relação estremecida, a carreira muitas vezes esfria e tudo pode mudar de sentido. É um amor enorme, mas há uma tempestade também. E todos só se lembram do glamour?
O post de hoje será uma continuação do texto “Desapareci ao me tornar mãe, mas me reencontrei”. Sugiro a leitura, muito interessante.
Estes dias, tive finalmente coragem de abordar o meu mergulho pessoal até o fundo do poço e a maneira que obtive forças para dar um impulso e subir até as margens, onde pude voltar a me enxergar novamente e percebi que a mudança da invisibilidade começaria única e exclusivamente por mim. Da minha percepção e capacidade de me reinventar como ser humano.
Antes de ser mãe, glamourizava a maternidade. Aquele filme de família feliz, “a la propaganda da manteiga Doriana” pairava em minha cabeça. Pensava numa licença maternidade onde teria tempo para fazer um bolo e receber as visitas a tarde para um café. Até minhas aulas de línguas eu continuei no inicio a licença maternidade, quando pouco a pouco fui deixando de lado as coisas que gostava, por não saber lidar com aquela nova realidade, que nada se assemelhava aos “happy endings” da Disney (pelo menos não no início).
É aquela coisa: Ninguém te disse que seria fácil, só mostrou o lado do tanto que vale a pena. Porém, para muitas, a gestação não é aquela linda mulher sorrindo, o parto não é como nos sonhos, a amamentação não se trata daquelas lindas imagens que as revistas mostram, o casamento não fica aquelas mil maravilhas, a introdução alimentar não é aquele bebê fofucho aceitando tudo de primeira, a inserção da rotina é trabalhosa, o bebê parece domínio público (onde todos tem o direito de palpitar) e por aí vai…
Porém, acreditar nessa glamourização do maternar faz você achar que o problema de as coisas não estarem sendo tão poéticas com você, ser culpa única e exclusiva sua. Comigo foi assim. Me julgava toda a hora. E o complicado é que, quanto mais você mostra fragilidade para as pessoas, mais elas te tripudiam pelas costas. Principalmente, e infelizmente, outras mães, pois o que mais tem é mãe apontando o dedo para a outra, ao invés de estender a mão e ajudar a levantar (ou simplesmente, lavar uma louça dela). Por isso digo que essa luta é quase que solitária, salvo pouquíssimas exceções de pessoas que verdadeiramente se importam conosco.
Mas, como eu disse, foi uma fase e graças ao amor que sinto pela minha filha que me reinventei, saindo da invisibilidade dia após dia. E conforme mais visível eu ia ficando, mais ia reconquistado coisas que sentia falta, como uma via profissional, por exemplo. “Só fazem conosco aquilo que NÓS mesmas permitimos que ficam”. Quando na vida eu imaginaria estar trabalhando com uma coisa que amo tanto, que é escrever, dentro de casa e podendo equilibrar esses lados da minha vida (mãe e profissional) que pareciam tão antagônicos?
Eu sabia que algo tinha que mudar, mas eu não tinha mais idéia de quem EU era. Eu também não queria ser mais aquela pessoa que fora antes de me tornar uma mãe, mesmo admirada por tantas pessoas que gostariam de ter estado na minha pele.
Passado é passado. E o futuro tem mais um membro. Era o momento de me reinventar.
Eu tinha para esculpir o meu próprio caminho na maternidade e encontrar o equilíbrio família/trabalho. Quando abandonei minha carreira de economista, não achei que iria demorar a retornar. Mas como parte de meu reinvento, passei a escrever mais e mais. Hoje eu percebo que realmente amo a pessoa que a maternidade me forçou a se tornar: Essa nova mulher é destemida (viro uma leoa pela minha filha, se preciso), madura (não ligo mais para bolsas ou sapatos caros), criativa (mãe SEMPRE arruma um jeito para tudo, se precisa de verdade), amorosa (conhecedora do maior amor do mundo, que é de uma mãe por um filho) e intuitiva. Só que o processo de entendimento disso foi lento e gradual, afinal as coisas acontecem como um tsunami e você lá nadando não se dá conta de qual caminho está tomando no começo.
Hoje eu sou grata pelo que me tornei, vivo positivamente e com esperança de sempre melhorar. E acho fantástico esse processo de me encasular como lagarta e, ao longo do tempo, virar borboleta, tomando novos rumos. Hoje consigo me permitir isso. É necessária essa auto-permissão.
Uma vez me perguntaram: “Nossa, uma economista escrevendo sobre família, mães e filhos… O que os recrutadores vão pensar se um dia você quiser retornar ao mundo corporativo?”… Num primeiro momento hesitei e cheguei a pensar: “não seria melhor trabalhar como perito econômico?”. Até me controlava mais no que escrevia. E esse auto-julgamento só me levava mais para baixo, para o fundo do poço. Até que cai em mim: Por que, afinal, tenho o dever de agir como os outros querem? A gente precisa ser feliz e não agradar a vontade alheia, até porque, essa não existe em unanimidade nunca. Se desempenho bem minhas funções, qual a importância existe para um recrutador nas atividades que você desempenha num período sabático? Nenhuma! Então por que eu tenho que me preocupar com o que eles pensam num momento que quero me reorganizar para ser feliz?
Eu posso ser racional, eu posso ser humanizada. Eu posso planilhar viabilidades econômicas no longo prazo e ao mesmo tempo transmitir meus sentimentos na escrita do dia a dia. Eu posso ser uma multiplicidade de coisas, se eu quiser. E inclusive tenho o direito de, lá na frente, olhar para trás e querer mudar de novo de opinião, por que não? Ninguém é obrigado a ficar preso a convicções que teve um dia, num passado em que você viveu, como “outra pessoa”, outros pensamentos e convicções. As pessoas são livres para mudar e alçar novos vôos. Temos sempre direito a uma segunda chance.
Minha pequena Clara me tirou do fundo do poço, ela precisa de uma mãe visível como referencia. Mas, ao mesmo tempo que me deixo transformar pelo amor que sinto por ela, eu sei que, um dia, ela crescerá, sairá do ninho (lei natural da vida) e eu vou ter que lidar com isso me reinventando mais algumas vezes… Assim como ela descobre o mundo, eu redescubro o meu.
Mais para frente, talvez seja mais fácil, talvez não…Mas agora eu sei que não há problemas em mudar meus rumos, meus pensamentos e opiniões…
Cada mulher que se transformou pela divindade da natureza em mãe e, por ventura passou por essa fase de invisibilidade, tem que encontrar seu próprio caminho, embasado no amor e aceitação.
Cada caminho é unico, só quem calça seus sapatos é que pode opinar. Essa foi mais uma parte da minha viagem pela maternidade até a redescoberta …
Tenham esperanças, com o amor que temos, tudo é possível!


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