Por que essa geração TEM e PLANTA tanta pressa?

Não pode esperar, não pode chorar, não pode tentar, não pode sentir, não pode arriscar…Por que não deixamos que as pessoas sintam e depois peçam e, após uma breve espera, possam enfim receber?

Ontem encontrei com uma senhora no supermercado, já de bastante idade, que andava com ajuda de muletas e ouvia mal. Mas a voz da experiência nela reinava. Me observou por toda a longa fila, brincou com Clara, que retribuiu com simpatia, deixando-a de certa forma emotiva. Já quando estava embalando meus produtos no caixa, ela me disse: “sabe por que sua filha é assim delicada? Olha a calma com que você explica as coisas para ela”.

Eu sorri, agradeci e, na pressa do dia a dia, terminei de colocar tudo nas sacolinhas e fomos embora.

Já em casa, aquelas palavras me martelaram. Aquela senhora ficara nos analisando calmamente, eu percebi até. Não me acho calma, sou plugada e ligada no 220V, mas sempre me exercito para a cada dia ter mais tranquilidade com minha filha. Peguei-me então refletindo despretensiosamente sobre como passar valores de paciência num mundo cada vez mais eufórico, express, delivery, virtual…Se para mim, mãe geração Y, é complicado, imaginem para aquela senhora o que esse mundo novo significava?

Recorreu-me um saudosismo das conversas longas, conexas, com sintonia de almas de não de Wifi ou 4G’s, como já dizia Cazuza: “tanta coisa em comum, deixando escapar segredos”. Entrega tão pura e isenta das malícias dos atuais prints. Por mais que houvesse fofoca – e como havia! – era como uma bolinha de neve arremessada a outrem, sem maiores repercussões. Hoje, é avalanche. Sufoca.
A bola de neve do “Ahhh deixa pra lá” ou, no máximo, “não quero mais sua amizade”, hoje ele se propaga na velocidade da luz, devastando auto estimas, fazendo que o que era curado com boas risadas, necessite de antidepressivos.
Para onde foi aquele tempo em que o beijo gostoso e inesperado, roubado no portão era o nosso maior motivo de querer espalhar ao mundo nossa alegria? Sem que precisássemos de aplicativos para nos conectássemos amorosamente a alguém.
Nada contra, mas nem sonhávamos com isso e, no fim das contas, por pior dor de amor que estivéssemos passando, víamos que o grande amor, se não morava ao lado, o destino se encarregava tranquilamente de trazer. Não por imagens escolhidas a dedo, como as das redes sociais, mas ao acaso.
Para quem tem pressa, nada como likes para envaidecer a alma

Ilustração de John Holcroft

Hoje pela foto no Facebook não reconhecemos a pessoa na vida real. Tanta produção, técnicas, filtros, né? Naquela época, encontrávamos o grande amor de nossas vidas na fila do supermercado com aquela cara lavada de foto 3×4 de RG. E mesmo assim, a magia acontecia.

A conversa gostosa com o melhor amigo foi substituída pela reafirmação através de likes e mais likes em redes, com “milhares de amigos”. A diferença é que o amigo de antes sabia tudo sobre você, e os de hoje -os das redes – muitas vezes nem te cumprimentam na rua.
Enfim, uma vida quase nada virtual e 100% real. Hoje não nos vemos sem um celular na mão, mas um dia minha geração nem sonhou com a existência desse mundo de hoje e posso afirmar que fomos muito felizes.
Será que realmente precisamos tanto dessa virtualização toda? De tudo e de todos os sentimentos? De avatares e não pessoas? De nichos e não tribos? De cyberbulling e não de fofoca da vizinhança?
Acho essencial a mudança. Tudo muda. A terra gira. Os jovens trazem a renovação. Mas não será exagerada a velocidade com o qual ela veio dessa vez?
Ou, melhorando a pergunta: não nos deixamos invadir demais pelas mudanças que a tecnologia proporcionou?
Tudo deve ser rápido demais, como num clique que une continentes. Tão acelerado, que não permite mais o tomar um banho demorado, passar um perfume, escolher com tranquilidade a roupa e finalmente estar pronto para dizer aquelas palavras que moram no coração, olhos nos olhos, ao vivo e a cores a quem tanto planejamos nos encontrar.
Por mais que a pessoa se permita a essa preparação tranquila, sem se estressar com trânsito, estress e lugar para parar o carro, ainda assim casais trocam as mãos romanticamente tocadas, agora ocupadas demais com um smathfone.
Os olhos nos olhos? Aqueles que enxergam a alma? Ocupados demais com as telas, “plims”, likes, postagens e mensagens instantâneas.
A singeleza da vida, a calma dos momentos, o escutar o outro numa conversa, isso é o que mais sinto de não poder proporcionar à minha filha.
Ninguém sente falta do que não conhece, eu sei. Isso me conforta, até.
Mas não passamos aos nossos filhos valores de paciência. Poucos são os pais que fazem a criança esperar, nem que seja um pouquinho. Prega-se a frustração pela espera. Pelo choro. Meu Deus, quanto na vida já esperamos e estamos bem?
A “Espera” é um valor e não motivo de vergonha. As coisas não precisam ser na velocidade que a era manda.
E a mim, a você, a quem enxerga tudo isso (sim, pois muitos não veem, dada a rapidez com que acontece), o que nos resta é disseminar os valores de “um pouco mais de paciência” nessa era lépida. Para que criemos pessoas, não avatares. Sentimentos e não imediatismo.
Por Marrie Ometto #reflexoesplugadas

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