Psicologia dos contos de fadas: o caso dos Três Porquinhos

Você acha que os contos de fadas trazem sabedoria com a moral da história? Sentimentos para a criança ao longo da trajetória da contação? Empatia? Estímulo à leitura? Saiba que, além disso tudo, alguns contos de fadas trazem conceitos, valores e acalento para muitas das nossas crianças, que identificam-se com as personagens ao longo da história. Nesse post, vamos destrinchar o clássico “Os Três Porquinhos”.

Afinal, qual é a moral da história dos três porquinhos? Que não devemos ser preguiçosos, que devemos planejar nosso futuro dadas as situações que temos em mãos? Sim, os porquinhos pareciam ter, de alguma forma, a consciência de que uma casa os protegeria do frio, do calor, do vento, da chuva e… do lobo!

Mas seria só isso mesmo?

Essa história é riquíssima pois, muito além dessa moral da história superficial, há implicitamente as vantagens do crescer – representadas nas decisões de tipos de casas para construírem –  e a criança identifica-se com isso. Minha pequena Clara sempre diz, com a sabedora dos seus 3 anos: “Mamãe, eu sou menina grande!”.

O porquinho mais novo, e mais inexperiente, constrói a casa menos preparada para os desafios do mundo: a casa de palha. O segundo, evolui um pouco, usa madeira, mas ainda assim, o porquinho mais novo e o do meio mostram certa preguiça, planejam pouco, querem construir rápido e com pouco esforço. Mesmo embora o porquinho do meio mostre mais esforço ao fazer algo mais robusto que o primeiro (evolui da palha para a madeira como material para a construção da casa, ambos parecem viver pelo principio do prazer, para os que entendem de psicologia, sobre as influencias do ID e da vontade,  sem pensar no futuro, no que os outros vão falar e nos perigos da realidade.

Já o terceiro porquinho, o mais velho, parece ter aprendido a viver com o senso de realidade: ela planeja sua casa de acordo com as necessidades que ela precisa ter para sua sobrevivência, deixando inclusive seu desejo de brincar para depois. Aqui, esse porquinho já mostra-se ciente do tempo de prazer (brincar) e do tempo das suas obrigações e lida bem com isso, não somente planejando bem sua casa, mas também preparando-se para as armadilhas que o lobo fará ao longo da historia.

A riqueza dessa historia está em mostrar a criança não apenas – e basicamente – de que é preciso deixar a preguiça de lado e fazer com capricho nossos deveres, mas como isso se dá conforme a criança vai crescendo: ela começa a controlar seus desejos de apenas brincar para dar lugar às pequenas responsabilidades que lhe serão conferidas ao longo dos anos. Como uma criança no Jardim de Infância que precisa preocupar-se somente com o brincar e, conforme vão crescendo, aos sete anos, começa a estudar algumas de suas lições.

Em geral, as crianças indentificam-se-se com os porquinhos e começam a entender que há essas etapas aceitáveis entre o principio do prazer para o principio de realidade na evolução como ser humano – da identidade. Ou seja, essas crianças percebem – com esperança – que através do desenvolvimento de sua inteligência, dedicação aos estudos e coisas que muitas vezes seu principio de prazer os boicota (como fazer seus deveres, concentrar-se e tal), de que através do desenvolvimento de sua inteligência ela pode sair-se vitoriosa mesmo sobre um oponente muito mais forte, assim como o porquinho mais velho vence o lobo diversas vezes.

E, no chamado senso primitivo de justiça (e como a criança percebe o justo) só aqueles que fizeram algo realmente mau são punidos. Até citei para vocês um estudo sobre ensinar a honestidade às crianças, em que elas acreditam que quando contam para os pais que fizeram algo de errado, arrependendo-se, é como se não tivessem errado.

Em muitos contos de fadas, as personagens vivenciam essa escolha entre seguir o princípio do prazer ou o princípio da realidade na vida. Nesse caso, o lobo é o malvado da historia pois deseja – e tem prazer – em destruir. O mais interessante é quando a criança, em seu incosnciente, ao ouvir este conto de fada, percebe o lobo dentro de si (como em situações em que sente ódio, em que bate num amiguinho, em uma birra, malcriação,…), entendendo que precisa controlá-lo para não sofrer as consequências. Ou seja, o lobo nada mais é do que a externalização da maldade da criança e o conto de fadas ajuda ela a lidar com isso construtivamente.

E que melhor forma de mostrar à criança que, mesmo ela as vezes sendo taxada de boba e criticada pelos coleguinhas por fazer tudo certinho (acordar cedo, fazer os deveres, não xingar, respeitar o próximo, ser honesto,…)  do que o exemplo do pouquinho da casa de tijolos, que além de planejar e executar brilhantemente seu projeto de casa de tijolos, levanta-se bem cedo para garantir comida no caldeirão, onde o lobo acabará queimando-se por entrar pela chaminé?

 É uma historinha simples, mas que mostra o processo de amadurecimento pela qual a criança passará e ela não apenas identifica-se, enxerga-se nessa historia de forma inconsciente, como também sente-se abraçada por ela!

Um beijo, Marrie

 

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