Homenagem Vovô para Clara

O vovô virou estrelinha: como abordar a morte com as crianças

Saudades-300x291A morte é o destino inevitável de todos nós. Desde os primórdios das civilizações, tem-se relatos de angustias metafísicas a respeito do tema, que não represente apenas o fim da vida, mas o limiar de outra realidade que ninguém nos contou como é, e portanto, um tanto como atemorizadora.

Se esse sentimento é assim para um adulto, como abordar a morte a uma criança?

O que mais vemos é evitar que crianças tenham contato/ experiência com a tristeza. Faz-se rodeios e não se abre os fatos à elas.

Mas será que poupar é a melhor solução?

Um amplo estudo infantil, citado no livro de Parker e Stimpson, “Criando Filhos Felizes”, mostra que crianças alfabetizadas buscam na internet sobre o tema quando perdem alguém importante às suas vidas, mas não falam muito sobre o assunto com parentes e vem a ter reações, muitas vezes violentas, tempos depois da morte da pessoa querida.

E por que essa reação violenta tempos depois? Justamente por que o fato não foi aberto, falado, abordado, esgotado. A criança não teve a oportunidade de expor o que sentia, afinal, adultos ao seu redor resolveram “poupá-la”, não tocando muito no assunto.

O fato é que as crianças não precisam de super proteção no que tange à sentimentos, seja alegria ou tristeza. Afinal, vão sentí-la de qualquer forma.

Abordar o assunto ludicamente, por meio de historias, filmes e canções com perdas é uma maneira de permitir que a tensão e tristeza da criança extravasem, e assim, percam a força.

Falar da pessoa falecida de um modo real, não só elogiando, nem criticando, mas abordando suas qualidades e defeitos, ajudam a criança a ter consciência de que a morte é algo natural a ser humano.

O ideal é que as crianças sejam preparadas antecipadamente. Nunca se sabe quando alguém querido irá embora. Então, fazer com que a criança saiba identificar a situação e evitar desenhos em que super heróis nunca morrem e sempre ressuscitam ajudam nisso. Especialistas dizem que a criança com 3 ou 4 anos já podem começar a ser introduzidas com suavidade a esses conceitos, mostrados através de morte das flores, dos insetos, das folhas que caem…

Um dia, algo assim pode acontecer:

-“Mamãe, você acha que fulano vai ressuscitar?”

  • “Meu filho, eu acredito que não”.
  • “Eu acredito que sim, Mamãe”.
  • “Isso é bom meu filho. Sempre é bom termos uma crença, nem que seja na ausência da mesma”.

Com o tempo, é importante manter a honestidade também, principalmente no tocante de que pessoas tem religiões – e portanto crenças – distintas.

Cuidado também com os eufemismos, muitas vezes interpretados ao pé da letra pelos pequenos. Algo como “foi dormir”, “está descansando” podem atemorizar, fazendo até que as crianças fiquem com medo de dormir.

Crianças com 5 anos em geral, não entendem a objetividade da morte.  Acima disso, até sim. Mas perguntas e mais perguntas vão ocorrer e, com essa idade, ser o mais objetivo, tipo: “parou de respirar, coração parou de bater, …”, melhor.

Com crianças pequenas, as coisas devem ser explicadas da forma mais concreta possível, pois é assim que elas entendem o mundo. Só a partir dos 10 anos, entendem termos abstratos, como paraíso ou espírito.

A regra de ouro é: se uma criança perguntar, dê-lhe a resposta. Encoraje-a a falar com naturalidade sobre seus sentimentos, não faça rodeios e muito menos hesite em oferecer conforto físico, que é o que mais precisam nesse momento.

Quanto a assistir aos funerais? Visto que deve-se deixar o sentimento extravasar, a super proteção nesse momento pode ser angustiante. Segundo o psicoterapeuta Pat Elliot, deixar que vá ao velório proporciona a criança dividir o sofrimento com os outros presentes. Pode ser uma liberação emocional. Porém, deixe que a criança escolha se prefere ficar em casa ou ir. Caso ela queira ir, é preciso que um adulto que o conhece muito bem esteja o tempo todo ao lado, para dar-lhe o apoio emocional necessário.

Minha filha Clara ainda é muito pequena, hoje tem 2 aninhos. Ela ainda está muito longe de entender até a morte das folhas no outono. Porém, ao já identificar os membros da família via fotos, percebe que Vovô Tadeu (meu pai) não está mais entre nós. Ele se foi quando ela tinha quase 6 meses de vida, convivendo pouco com ele. Na verdade, nem tem tantas lembranças. Mas o fato é que ela percebe que “falta” um dos avôs.

Eu digo a ela que Vovô Tadeu virou estrelinha, que olha por nós lá do alto, numa viagem que fez sem retorno.

De certa forma, conforta o fato de ter alguém querido olhando por nós, independentemente da crença que temos. Isso ajuda a ela a “dar um lugar” à pessoa das fotos, que não esta mais entre nós, mantendo-o vivo na sua memória e também, de alguma forma, acostumando-a com o fato de que, um dia, todos nós iremos, o destino é certo e não há motivos para negar isso.

Abordar isso não é trágico, muito pelo contrario: reconhecendo a finitude de nossa missão nesta vida, ensinamos a priorização dos valores, desde pequenos. Falar com seu filho abertamente sobre emoções fortalece sua auto estima.

Como mãe, é difícil expor nossos filhos a situações difíceis. Queremos proteger. Porém, é impossível tirar todo o sofrimento, magoa ou angustia da vida dos nossos filhos, portanto, ajudá-lo a lidar com isso fará com que canalizem melhor esse sentimento.

Homenagem Vovô para Clara

Homenagem Vovô para Clara, quando ela nasceu

Eu e meu pai

Eu e meu pai

 

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