Tecnologia em excesso tem efeito de drogas e afeta relações humanas, como casamento e educação infantil.
Alguns estudos apontam que excesso de tecnologia causa dependência tanto quando a das drogas no cérebro humano. Para Cosette Rae, o fim de seu casamento aconteceu devido aos milhões cliques.
Rae e seu marido sempre trabalharam como programadores e gastavam horas na frente das telas, não somente no trabalho, mas também em casa. Com isso, o dialogo do casal foi minguando. Deixavam para depois assuntos que deveriam ser tratados naquele momento, como casal, por que estavam muito entretidos com o trabalho, fóruns de discussão na internet, mídias sociais, noticias…
Porém, Rae não sabia que ela tinha desenvolvido uma doença que tem nomes diferentes nos diversos círculos psiquiátricos: Dependência tecnológica, compulsão de uso da Internet ou, mais comumente, transtorno de dependência da tecnologia. Independentemente do nome, o fato era que ela não conseguia encontrar tempo sequer para colocar seus próprios filhos na cama. Rae e seu esposo trabalhavam com aquilo, então não viram a doença entrar, por se tratar do ganha pão deles. Foi algo silencioso.
“Houveram momentos em que eu não lia para meus filhos antes de eles dormirem, mesmo se eu quisesse, sentisse vontade de tal, pois minhas interações com as mídia digitais interferiram com a minha capacidade de ser o tipo de mãe que eu quisesse ser”, disse Rae.
“Sempre foi ‘apenas mais cinco minutos”, e, quando me deparava com a realidade, via quatro horas da minha vida gastas ali, iluminada pelas luzes daquela tela”.
Rae se tornou uma psicoterapeuta e co-fundadora do reSTART, um centro de recuperação do Estado de Washington para as pessoas que lutam para gerir o seu tempo no mundo digital.
Hoje, o vício digital – seja ele a fixação compulsiva pelas mídias sociais, likes, mensagens de texto, jogos, vídeos ou pornografia – é ainda um termo muito obscuro.
É difícil ainda saber ao certo quantas pessoas são afetadas, mas um estudo de 2009 da Game Society descobriu que cerca de 8% das crianças com idades entre 8 a 18 anos em todo o mundo podem ser qualificadas como viciadas digitalmente, perdendo importante fase de desenvolvimento social e emocional deles para a internet.
Isso significa cerca de 3 milhões de crianças, um número assustador, alega Dr. Andrew Doan da “U.S. Naval Substance Abuse and Recovery Program” de San Diego. Para ele, não existe nenhuma outra droga de livre escolha que você possa obter ao custo de uma conexão na internet.
Outro estudo de 2014, publicado pelo psicólogo Daria Kuss da Nottingham Trent University U.K., coloca o índice de dependência digital em cerca de 26% no mundo asiático.
Em 2008, a China tornou-se um dos primeiros países do mundo a declarar o vício pela internet como um de seus principais riscos para a saúde pública, estimando-se que mais de 20 milhões de seus cidadãos são viciados em tecnologia.
Os parâmetros para dependência digital ainda não estão totalmente definidos, mas vícios digitais são semelhantes aos vícios comportamentais – como jogo compulsivo. Quando o cérebro experimenta algo agradável – por exemplo, ganhar um jogo online ou ter muitas curtidas numa foto em mídias sociais – ocorre um jato de dopamina no corpo. Quando alguém se torna viciado em alguma atividade, os receptores neurais do cérebro ficam alagados com a dopamina, levando o viciado a procurar esses sentimentos novamente de forma cada vez mais agressiva. Quando se trata de uma criança ou um jovem, ele deixa de viver a realidade em busca dessa aceitação virtual. Uma tristeza.
Quando a atividade é cortada, é preciso tempo para os receptores cerebrais “acordarem para a vida real”, resultando em depressão, alterações de humor ou privação do sono. Dona diz que a ciência precisa começar a classificar diferentes tipos de mídias com base no que ele chama de “potência digital”, pois, segundo ele, não vemos as pessoas ficando viciadas em PowerPoint, por exemplo, sendo o maior desafio descobrir quão potente algo como o Facebook ou Instagram é em se comparado a algo como jogos.
Doan vem estudando o vício digital na Marinha. Ele publicou recentemente um estudo sobre o caso de um funcionário, diagnosticado como “viciado em Google“, utilizando a ferramenta por cerca de 18 horas por dia, deixando-o irritadiço e até mesmo chegando a sonhar como se estivesse vendo tudo através da tela do Google.
Outro caso interessante foi o de Matt McKenna, que durante três anos, vivia e respirava jogos online, até que um dia, o estudante universitário jogou incessantemente por 30h, até que desmaiou. Entrevistado, ele respondeu: “Tudo que eu queria era aquela vibe. Na vida real, precisamos trabalhar muito duro para que o sentimento de realização venha (e nunca é algo instantâneo) e, as vezes, mesmo que muito merecido, essa reconhecimento não vem. Mas no jogo, você não precisa trabalhar duro para ter essa satisfação”, disse McKenna.
Armadilha Parental – Vicios em tecnologia começam em casa
Quando o Dr. Hilarie Cash assumiu um jovem paciente viciado em um jogo online, não conseguiu pensar em outra coisa que não fosse em seu filho, não queria que ele acabasse da mesma forma.
Cash, sócio cofundador da reSTART com Rae, diz que hábitos vícios em tecnologia começar em casa. Afirma ainda que teve um paciente que disse ter percebido que sua esposa era viciada em Facebook, principalmente usando a ferramenta enquanto amamentava, já desde o peito dando o exemplo. “Muitos pais têm esta fantasia delirante de auto-serviço, onde eles acham que seus filhos vão se tornar mais espertas porque são expostos a estes dispositivos. Mas, outras vezes, os pais até sabem do dano das telas a criança, mas continuam usando porque os próprios pais não conseguem largar de seus smartphones”, disse Cash.
Recentemente, a Academia Americana de Pediatria assumiu que a tecnologia não precisa mais ser o vilão da infância e que, com moderação, seu uso é benéfico. Eu mesma, sempre que saio em algum lugar que não tem artes kids (a vida muitas vezes nos coloca nessas circunstancias), levo o Ipad para que eu possa comer em paz no restaurante, já que seria exigir demais que uma criança – saudável e ativa – permanecesse sentada por uma hora esperando a comida chegar, num lugar em que nao há preparo nenhum para que as crianças possam ser crianças. Porém, no dia a dia, restrinjo o uso e incentivo as brincadeiras sem tecnologia, bem como escolhi por uma escola que não utiliza telas e nem televisores. Em casa, a TV passa o dia todo desligada, assisto series no Netflix quando a criança já adormeceu.
A Internet é parte da vida moderna, e ninguém mais prega pelo retrocesso – mesmo para as crianças – mas sim que haja uma elaboração de planos e esquemas que restrinjam a exposição.
Rae diz que o uso digital deve sim ser monitorado, estabelecendo limites de tempo on-line para as crianças. Não é um processo fácil, por isso que as famílias precisam começar a configurar limites desde cedo, afinal, muitas de nossas necessidades sociais podem ficar ali, sequestradas em um smartphone ou dependendo da aceitação de pessoas que nem gostam da gente, nas mídias sociais.
A tecnologia pode prender a atenção de uma criança, impedindo-os de interagir com o mundo que nem sequer tiveram tempo direito de conhecer.
Todos nós desejamos conexão humana, precisamos disso para o desenvolvimento emocional saudável. Não há páginas no Facebook, perfis no instagram ou vídeos no Youtube que substituam um ombro amigo, um abraço, um sorriso, uma risada, um beijo, um carinho, o apego. Essas coisas jamais poderão ser substituídas virtualmente. Se forem, teremos virado robôs.
Rae, que viu seu casamento ruir pelas mídias, disse que não sabia como a vida poderia ser agradável fora do mundo digital, na esfera REAL. Precisou tudo isso acontecer, o divórcio, para que fosse buscar entender o que acontecera e aí realizar o que efetivamente houve.
E é exatamente por isso que o uso da tecnologia sustentável é provavelmente uma das conversas mais importantes desses nossos tempos, pena que tão pouco abordado. Parece que cada vez mais as pessoas parecem querer estar presas nesse mundo irreal, como um alcoólatra que não admite precisar ajuda.
Um beijo, Marrie.
Fonte: Texto inspirado em Deseret News, traduzido e adaptado pelo site Mamãe Plugada.
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