História da falta de sororidade entre as mulheres

Hoje resolvi escrever da onde remonta a falta de apoio que uma mulher oferece à outra, de onde surgiu o ideal da placidez materna e feminina e o porquê de nos sentirmos sobrecarregadas ao acharmos que TEMOS que dar conta de tudo. Sororidade e feminismo à revelia: de onde surgiu essa falta de empatia de uma mulher para com a outra?

A mulher excluída do “Liberdade, igualdade, fraternidade” luta até hoje por espaço.

Voltemos um pouco na história para analisarmos o quanto evoluímos, mas ainda patinamos no quesito direitos femininos.

Ao viajar pelo século XIX, sempre privilegiou-se nas fábricas e minas, o trabalho masculino, sendo o trabalho feminino, nessa consolidação do capitalismo moderno pós revolução industrial, era visto como secundário. Algo que só de 1970 em diante que tem mudado, porém até nos dias de hoje, em pleno 2018, tem-se líderes dizendo preferência por trabalho masculino, “pois este não engravida”.

Voltando ao período do apogeu do capitalismo, não há dúvidas que naquela época, a sociedade é patriarcal, as mulheres não votavam e eram restritas de inúmeros direitos. Michelet (historiador francês do Sec XIX) explana a dualidade com que a mulher era vista à luz daquela época: mulher mãe, dona de casa, que zela por sua família, o lado “benéfico” que até hoje tem como ideiais a mulher perfeita, que dá conta de tudo e satisfaz a todos no lar. E do outro lado da dualidade, no sec XIX a mulher tinha o lado “maléfico” vermelho como o sangue, negro como o diabo, nas palavras de Michelet. Isso representa o lado da mulher que pretende tomar o lugar do homem.

Assim, algumas dirigentes na revolução francesa eram chamadas de “Homens Mulheres”.

Claro que isso não representa a mulher, mas mostra já aí o temor da mudança. A mulher tomando lugar do homem… Como continuar com tais preceitos em um ambiente de ideiais iluministas de igualdade, liberdade, fraternidade?

Não somos iguais?

Não cabe ao indivíduo a liberdade?

Cadê a fraternidade?

Era difícil encontrar argumentos, à luz da época, que justificasse a exclusão das mulheres e a solução para isso foi pautada em pesquisas engenhosamente direcionadas a mostrar as diferenças biológicas entre homens e mulheres.

Surge então as teorias científicas do século XIX pautando os interesses da época: homem cérebro e razão e mulher sensibilidade e coração.

Era preciso resgatar a masculinidade perdida com o fim da nobreza e o advento da sociedade liberal democrática. Tudo o que precisavam para continuar com as desigualdades, que até hoje se manifestam? Quantos textos a gente não lê por aí pautando a mulher como ser sentimento e coração, ainda em 2018, com trilhões de likes? Argumentos tão século XIX, gente…Não que mulher e homem sejam biologicamente iguais, mas argumentos tendenciosos pairam ainda hoje…

Voltando ao tema, estaria à mulher então destinado o íntimo, a casa e a família (Perrot, 1987, p176-180). Assim, caberia a mulher não só ser dona de casa, mas também ser guardiã dos ideiais e bons costumes da aldeia. Assim, sabiam de tudo, das fofocas, sendo donas das panelas e das novidades. Isso não incomodava os homens. As mulheres assim, eram as valorizadas e admiradas, sem o risco de dar a elas a escolha do que elas quisessem ser.

Surge aí a falta de Sororidade? A mulher repreendendo a outra que luta, inclusive, por seus direitos? Por que enquanto uma fica cuidando dos “bons costumes” que lhes foram colocados, a outra lutava por questões como direito ao voto feminino, por exemplo. E eram crucificadas, inclusive, por mulheres.

Tirando os papéis e funções, essa falta de apoio de uma mulher para com a outra soa familiar até nos dias de hoje, não?

Existiam, em menor quantidade, já no sec XIX, as consideradas destemperadas: a ativista, a militante. A mulher vista por todos com desconfiança.

E, as de classe média que buscavam alguma representatividade moderada, ao fazer eventos em prol de caridade. Isso era visto com bons olhos, pois remetia a mulher ao sentimento, ao coração, à caridade. Mas com maus olhos também, pois ela exercia assim, funções executivas que “não lhe pertenciam”.

Houve uma época em que só um tipo de mulher não era julgada: a dona de casa. Mas, sem direito algum, milhares sofriam calada, como propriedades de seus esposos. O adultério feminino era crime, o masculino não era nem sequer considerado uma contravenção. Não podiam abrir contas em bancos sem o consentimento dos maridos. Não votavam. Não poderiam ser testemunhas em júris.

As demais mulheres – também sem direitos, mas não coniventes com isso, eram vistas com maus olhos, inclusive por elas mesmas.

Em 1903, mulheres nascidas nas melhores famílias inglesas romperam com o que lhes era imposto e foram, muitas vezes, radicais e violentas, a ponto que quebrarem urnas, ao exigirem direito a voto. As chamadas sufragistas, que lutavam pelo real sufrágio universal. Esse evento data a origem do feminismo moderno.

Assim, os direitos eram lentamente concedidos, enquanto rapidamente as mulheres se inseriam no mercado de trabalho e nas universidades, mesmo em condições sempre nada privilegiadas.

Vejo que, a conquista de espaços femininos esbarram em teorias criadas por homens fortemente enraizadas em valores até os dias de hoje, no fato de, nós mulheres, ainda não termos total convencimento do quanto ainda somos prejudicadas e também da falta de Sororidade, iniciada no século XIX e existente até os dias de hoje.

Se as mulheres se unissem da mesma forma em que acompanham as notícias e se julgam, teríamos nossos direitos de sermos o que quiséssemos, mães, trabalhadoras, empresárias, com igualdade de condições, mesmo em condições tão desiguais, que muitas fingem não perceber.

Tempo passou, coisas evoluíram, outras nem tanto…assim, vivemos um interessante contexto social, onde muito é empurrado para nossas costas, mas não somos valorizadas para quase nada.

Dona de casa perdeu seu valor, ela tem que ganhar dinheiro.

No mercado de trabalho, ainda ganhamos menos que os homens, em cargos similares.

Em casa, espera-se que os afazeres domésticos sejam nossos, não importa quantas horas tenha trabalhado no dia. O PENSO é todo da mulher.

Se trabalha demais, é julgada por ela e pelos outros por terceirizar as crianças.

Se ela faz tudo isso para sentir-se realizada, cobra-se por não dar conta de tudo.

Se desiste, é arrastada para um empreendedorismo, muitas vezes sem vocação, mas como única opção.

Enfim, o que queremos? E como queremos? Isso só será possível com união…

Por Marrie Ometto, autora de “Desapareci ao Virar Mãe, Mas Reencontrei-me”, disponível para vendas na Amazon (link http://bit.ly/livrodesapareciaovirarmae), Editora Bianch e Livraria Cultura.

Fonte de pesquisa:

Daniel Aarão Reis Filho et al. O século XX, o tempo das certezas: da formação do capitalismo à Primeira Guerra Mundial. 2011.

Perrot, M, “Maneiras de Morar”, 1991.

Hobsbawn, E. “Ecos da Marselhesa”, 1996.


Leia também:

Direitos “iguais” entre homens e mulheres, mas pesos e compensações diferentes…

Sororidade: Você sabe mesmo o que é e a importância que tem?

Com “penso” ou “sem penso”?

 

2 Comments

  1. Samantha Martins

    8 de agosto de 2018 at 11:08

    Inclusive a ideia de ser fofoqueira já é atribuída a mulher, como se fosse algo inerente a ser mulher, como se fosse uma “sina” da qual não se pode fugir. É o nosso papel mesmo!
    Outro dia conversava com um colega sobre as “fofocas de porta de igreja” em que as pessoas contam entre si o problema de alguém (com o objetivo de orar/rezar por elas), porém não poupam de dar todos os detalhes (reais ou não, não vem ao caso) sobre aquela problema. É uma fofoca mascarada.
    Excelente texto, Marrie, muito legal esse apanhado histórico.
    Bjs

    1. Marrie Ometto

      8 de agosto de 2018 at 11:49

      Verdade, Sam. Historicamente, fomos colocadas às janelas como guardiã da moral e bons costumes das cidades, para que não fossemos exigir nossa igualdade de direitos. Assim, elogiavam-se as fofocas. Hoje, tentam manter o que foi manipuladamente montado, usando o determinismo de que mulher é naturalmente fofoqueira. Conhecer a história nos conscientiza bastante, fazendo uma reflexão crítica para nossa parte na mudança ?. Não é sina, mas está nas veias históricas, é preciso um detox onde cada uma passa a olhar para a outra com menos julgamento ❤️.

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