Há dois anos e meio, recebi a benção de ser mãe, mas descobri também que esse desejo tão planejado e romantizado é também o trabalho mais cansativo e menos valorizado do mundo. Não dá para esperar que o que você faz, seja retornado. Nem que alguém pare e diga: “que boa mãe você é”, ainda mais nesse mundo tão competitivo em que vivemos.
Antes dessa benção, eu estava ocupada demais para perceber coisas simples como o quanto educar um ser é algo tão pouco valorizado: trabalhava muito como economista, fazia MBA, estudava uma segunda graduação, viajava bastante a trabalho e ainda arrumava tipo para amigos, marido, para cuidar de mim mesma e ainda fazer ballet e pilates. Nunca deixava nada de lado e, se me faltasse tempo para algo, corria usar meu horário de almoço (1 hora SÓ PARA MIM) e pronto! Tudo resolvido! Me sentia tão produtiva! Era tão admirada por todos pelas minhas conquistas, pela memória impecável, pela garra em conquistar tudo o que queria e por estar sempre bonita e bem arrumada.
Engravidei e continuei fazendo tudo o que sempre fazia, inclusive fiz hidroginástica e pilates até o 9 mês. As pessoas brincavam que minha Clarinha nasceria lá na piscina, em meio aos exercícios, tamanha era aquela barriga, rsrsrs. Eu não aceitava deixar nada de lado. Não aceitava a produtividade cair. Isso não era de mim.
Na inocência de grávida de primeira viagem, cheguei a achar que minha licença maternidade seria tipo umas enormes férias que nunca tive: minha bebê dormiria lindamente no Moises, enquanto eu esperaria as visitas com bolinho feito por mim e cafézinho fresquinho. Doce ilusão!
Minha memória foi para as cucuias. Minha produtividade (dessa de dar conta de tudo) diminuiu 95%, afinal estava totalmente voltada para a bebê.
Eu estava mantendo uma bebê viva, quentinha, alimentada, feliz, apegada, regada de amor e descansada, mas é claro, para a consciência programada em resultado, praticamente nada estava sendo realizado. Aos olhos dos outros (que viram aquela mulher forte desaparecer), que não davam o devido valor ao MONTE DE COISAS que eu fazia e me deixavam exausta. A verdade é que só o amor paga as 24h exclusivas de dedicação regadas a muito julgamento, dedos apontados e falta de valorização. Por mais que eu tivesse decidido pausar minha carreira pela bebê, aquela falta de valorização externa me afetou sim, não vou negar. Fiz de forma planejada, escolhi ficar mãe 24h por um tempo, mas não imaginei que a pressão seria tão grande. Além disso, conforme o bebê vai crescendo, começam a perguntar o porque ainda não está sentando, por que não engatinha, por que demora para andar e por que não fala… Claro que toda a mãe busca informações sobre as fases de desenvolvimento e busca o melhor para seu filho. Mas, se algo não está de acordo com o cronograma pautado, ahhhhh, imaginem quem é a culpada?
Eu tive sorte, sempre fiz do chuveiro uma breve meditação. Aproveitava as sonecas, tomava quantos banhos fossem necessários por dia, para manter minha sanidade mental. Não era o cansaço que me detonava. Era essa pouca valorização que me fazia afundar cada vez mais. Imagine, fui criada para conquistar mais e mais desafios e, de repente, meu maior desafio era criar um ser, que para mim tinha um enorme valor, mas para todos ao meu redor parecia tão pouco…
Horas e horas foram gastas amamentar, cuidar da casa, do casamento, dos cães e, por ultimo, de mim. Meu coração estava cheio de amor, o maior amor do mundo, meu marido e eu tivemos crises, mas ele também é pai de primeira viagem e foi buscar informação para me ajuda, nos ajudar. Quando há amor, tudo vale a pena!
Mas, naquela situação de desaparecimento, minha mente estava ficando louca. Eu estava tão acostumado a fazer as coisas, dar forma à elas, fazer e acontecer. E, de repente, me sentia num limbo onde só vinha luz do amor imenso, que apesar de enorme, não me tirava completamente do fundo do poço que me enfiei.
Eu passei a escrever as idéias vinham à minha mente, organizar os pensamentos, me encontrar nas minhas próprias palavras. Comecei a escrever as coisas que eu precisava ou queria fazer. Mas experiência de passar um dia inteiro sem qualquer produto final era insuportável para mim, que fui criada para produzir.
Doce inocência de inicio de maternidade.
Com a maturidade, percebi, organizando meus pensamentos em reflexões, que eu não precisava necessariamente desaparecer, deixar de produzir, já que o que eu estava produzindo era o mais belo e valoroso para uma humanidade: as incontáveis horas gastas falando desde muito cedo sobre tudo com a Clara, vê-la brincar, entrête-la e vê-la a cada dia crescer e se desenvolver são tão preciosos! E, desculpem-me o palavreado, “FODA-SE” se achavam que eu não estava fazendo nada. Se achassem que eu era uma folgada dentro de casa ou uma pessoa que exigia do meu marido um sócio na rotina do lar, mesmo ele tendo trabalhado o dia todo, afinal, eu também tinha trabalhado – E MUITO! Produzindo um ambiente propicio e saudável para a criação de um ser.
Comecei a perceber a beleza daquilo que eu estava vivendo ao lado de minha filha e realizar que não era só porque eles crescem rápido e que aquele tempo nunca viria novamente, mas também porque esse momento de profundo cansaço e fundo do poço, acompanhando tanta coisa linda de minha filha, paradoxalmente foi uma fase de PROFUNDO CONHECIMENTO DE MIM MESMA, onde a metamorfose de mãe à mulher não estava sendo compreendida e por isso tão cansativa.
Minha avó uma vez me disse, sobre ter criado 4 filhos praticamente sozinha, já que meu avô ficou por 10 anos doente e veio a falecer muito jovem, quando ela tinha apenas 37 anos: “A melhor coisa que uma mãe pode fazer por seu filho é descansar dentro de si mesma”. Ou seja, em meio a um dia de “faz comida aqui”, “dá comida ali”, “prepara o tetê”, “troca a fralda”, “leva no ballet, natação, judô,…” eu hoje diria que a melhor coisa que podemos fazer para qualquer um, e acima de tudo nós mesmas, é aprender a descansar dentro de nós. Estarmos em paz diante do simples fato que estamos dando nosso melhor. Chutar a Culpa para longe. Descansar dentro de si com a frase “fiz o que poderia ter feito”, “dei o melhor de mim”, “estou aMÃEdurecendo e não nasci sabendo”.
Culpa por que se você está dando o sangue, tudo de si em uma causa?
Errar todo mundo erra na tentativa de acertar e a prática leva somente ao aprimoramento.
Para se desconectar da doideira de tentar fazer as coisas, de mostrar produtividade, das preocupações, dos julgamentos e dos SEs (“se estou sendo boa mãe”, “se estão achando que fiz certo”, “se estão me julgando”,…) que, afinal, são apenas fruto da nossa imaginação).
Desconecte-se da necessidade de produzir, de fazer além do que é capaz e, acima de tudo, ABANDONE DE VEZ A IDÉIA ROMANTIZADA DE QUE MÃE PRECISA SER PERFEITA. Assim, podemos começar a respirar e voltar a olhar para nós mesmas, agora totalmente transformadas.
Mas, para desconectar-se de tantas cobranças, é preciso entender que essa busca incessante pela perfeição é algo inerente à humanidade, que é por essência imperfeita. Mesmo quando planejamos tirar umas férias, ir à praia ou ao campo para relaxar, se você não se desconectar da rotina do dia a dia, mal irá descansar. Ou seja, se ainda estiver conectada à culpa, para onde quer que você vá, lá ela estará também!
Então como nós aprendemos a tirar férias nossa mente, das culpas? Pela gratidão do que tem, pelo tentar resolver o que está errado com ações simples e não carregando o mundo nas costas em busca da perfeição (que seria futura) e, principalmente, pelo apreciar o aqui e agora.
O que posso dizer que aprendi com a maternidade, mais especificamente através da organização de ideias através de minhas reflexões (que hoje tornaram-se meu trabalho) é que simplesmente dar o melhor de mim, sem me chicotear no fim do dia, descansar em paz dentro de mim mesma é o melhor que poderia fazer na busca desse reencontro comigo mesma. Ao permitir que a minha mente descanse sem culpa, ao permitir-me levemente curtir o aqui e agora sem tamanhas exigências de produtividade para agradar talvez uma sociedade, comecei a sentir uma profunda sensação de paz.
Eu também percebi que essa sensação de paz, de desapego, de apenas ser, foi, ironicamente, exatamente o momento em que as coisas começaram a encaixar-se em minha vida, em que comecei a ver um rumo novamente, a “reaparecer”, a trabalhar novamente, e, justamente, foi assim, aprendendo a descansar dentro dos turbilhões que estavam exatamente dentro de mim mesma, que consegui encontrar-me ainda mais produtiva.
Um beijo, Marrie
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Kelli Cristina Martini
24 de março de 2017 at 23:20Esse texto Me descreve….
Cada dia aprendendo um pouco
Ser mãe é maravilhoso
Não tem palavras que possa descrever essa benção, que mistura cansaço, com alegrias, com ingratidão, com julgamentos, mas que é de um amor inexplicável
Só quem é mãe e vive a maternidade de verdade entende o nosso desencontro para o encontro do amor de nossas vidas
Adriana Conradi
Julia Fernanda Konopatzki
Carina Scherer
Andreia Galvan Araujo
Fernanda Mombach Gonçalves
Daniela Ecker
Carol Comarella de Queiroz
Cristiane Comarella De Oliveira
Jaqueline Correia Gomes
24 de março de 2017 at 17:40Aline Rocha Leal Rufato Gadelha
Aline Rocha Leal Rufato Gadelha
24 de março de 2017 at 18:52Adorei amiga é bem isso mesmo
Vanessa Silva de Moraes
24 de março de 2017 at 16:46Ahhhh que texto lindo! Bem assim que me sinto às vezes!!
Aline Turano
24 de março de 2017 at 14:40Como pelo amor de Deus! Sei q nso é tudo culpa dessa delicia q é a maternidade, mas estou esgotada e não me vejo além de um borrão.
Marcia Attia
24 de março de 2017 at 14:05Marcia attia
Priscila Almeida Velez
24 de março de 2017 at 13:24Interessante seu ponto de vista. Nunca liguei para as cobranças dos outros, mas das minhas próprias cobranças sim. São as maiores e mais intensas, sempre estudei muito, queria as melhores notas e trabalhar logo, nunca fui cobrada por meus pais, eu que desde pequena sempre pensei lá na frente, queria ser independente e dona do meu nariz, acho que por isso nunca liguei para pitaco de ninguém….Mas isso é muito particular meu, também não tenho nada contra quem quer se dedicar …24/7 aos filhos, pq 100% do tempo que eu tenho também dou….Acho que toda mulher tem que ser livre para escolher sua vida. Mas tenha certeza que quem decide não ser “apenas” mãe … o que não é nada pouco, também é criticada! O que falta nessa sociedade é empatia!
Fernanda Giovani
24 de março de 2017 at 10:55Muito bom! Adorei
Vanessa Nunes Gomes
24 de março de 2017 at 10:51Adoro suas publicações
Mamãe Plugada
24 de março de 2017 at 14:07Obrigada ❤
Pamela Viana
24 de março de 2017 at 09:55Vanessa Silvestre
Tatiana Faria Lima
24 de março de 2017 at 09:04Texto lindo!