Um relato detalhado de um pai, escrito em inglês e traduzido pelo Blog Mamãe Plugada, que conta o que e passa em sua cabeça num momento de conflito com filha de apenas 5 anos. Incrível a perfeição e riqueza de detalhes em que ele conta como a paciência cessa e dá lugar ao desentendimento familiar. Poderia perfeitamente ter sido escrito por uma mãe também.
Eu nunca passei por isso ainda, mas posso imaginar os sentimentos descritos por ele! Certamente todo o pai, um dia que seja, sentirá a impotência que ele sentiu e descreveu brilhantemente.
Este texto é muito chocante e eu não sabia como chamá-lo. Poderia ter como título: “não ceda a julgamentos alheios” à “faça apenas o que seu coração mandar”.
Enfim, vale cada linha da leitura.
“Eu estava no telefone com meu pai, um homem sozinho, que estava mais ansioso do que o habitual para falar de coisas que se passavam em sua mente. Estávamos em uns 5 minutos de conversa, quando minha filha começou a gritar comigo lá da área dos quartos.
Crianças odeiam quando a gente fala ao telefone, né? Incrível!
Quando se tem filhos, cada conversa vira meia conversa, nunca mais conseguimos terminar um raciocínio. Desde que ela nasceu, a 5 anos, é assim e agora eu tenho um saldo de conversas que ainda precisam de ser retomadas.
Ela continuava a me chamar! “PAI”.
Eu a ignorei e continuei falando com meu pai.
“PAI! PAIÊEEEEEE!”
“Oh Deus, caramba. Pai, eu posso te ligar de volta mais tarde?”
“Sério isso?” meu pai disse. “Você vai cair no jogo dela e desligar comigo?”
Nossos pais sabem exatamente como nos tocar. Meu pai me fez uma simples pergunta e eu poderia escrever páginas e páginas em um livro com a interpretação das entrelinhas. Tipo (em minha mente): “Você é mole porque você está fazendo o que seus filhos te dizem para fazer. Quando você era criança, nunca mandou em mim assim. Sua geração é fraca e você é um escravo excessivamente permissivo aos seus filhos. Você deve fazer aquela criança ficar quieta e ensinar-lhe algumas boa maneiras”.
Sim, eu interpretei aquela simples frase “Você vai cair no jogo dela e desligar comigo?”.
E o mais incrível foi a maneira a qual me agarrei a esse discurso de meu pai. Ou ao que essas palavras haviam gerado em minha mente de forma imediata. Uma pergunta simples havia alterado toda a minha filosofia de modo de educação ali mesmo, naquele instante.
Eu estava agora dividido entre lidar com a menina e o olhar sisudo de meu pai, que eu o via/sentia mesmo ele não estando ali, presente fisicamente em casa.
“Querida”, eu disse à minha filha: “Eu estou falando com Vovô no telefone. Depois vou até aí. Agora não dá.”
“Eu quero falar com você agora!” – Ecoou na sala.
Nesse momento eu fiquei realmente bravo porque eu sabia que o meu pai estava ouvindo tudo. “Olha aqui, mocinha: A senhorita sente aí e fique quieta até que eu termine de falar ao telefone, ok?”.
Ela não obedeceu. Ao invés disso, ela gritou para mim. Sem palavras, apenas um grito ensurdecedor que quase estouraram meus tímpanos. Estendeu a mão como se fosse uma garra, como se ela quisesse tocar meu rosto. Em seguida, ela gritou de novo, como se tivesse experimentado algum tipo de trauma, fazendo com que ela apenas conseguisse se comunicar através de gritos primitivos.
Tive que agir.
“Pai, eu tenho que lidar com isso”, eu disse. Eu quis enfatizar que eu desligaria estritamente para que eu pudesse colocar minha filha em seu devido lugar. Educá-la, como ele havia sugerido anteriormente, naquela simples e marcante frase de pressão.
Fui rapidamente até ela. “O QUÊ É? O que é tão importante que você precisa ficar gritando assim?”
Ela gritou novamente. Os gritos proporcionaram-lhe sucesso, pois eu parei exatamente tudo o que estava fazendo para dar atenção a ela.
O fato era que, se a ATENÇÃO era raivosa ou carinhosa, pouco importava a ela. As crianças não dão a mínima para isso. O que queria tinha sido testado e comprovado. Os gritos lhe proporcionaram a atenção que almejara.
“Mocinha, vá para o seu quarto agora.”
“NÃO! Vá você para o SEU quarto!”
“Vou contar até três.”
“FAKA.”
“O que?” – disse sem entender.
“FAKA.” E então ela riu.
“O que é faka? Você está tentando dizer que … bem, eu não posso afirmar o que eu acho que você está tentando dizer”.
“Faka.”
“Pare de dizer isso. Isso soa como uma palavra ruim e eu não gosto de ver você usando palavrões.”
“Faka.”
“Ok, é isso. Sem sobremesa.”
“Eu te odeio!” ela gritou.
“Ok, sem sobremesa por duas noites.”
“Rrrrrrrrrrrr!” ela rugiu.
“Uma semana sem doces.”
“Faka.”
“Um mês.”
“Faka.”
“Não terá sobremesa nunca mais. É O FIM DAS SOBREMESAS PARA VOCÊ. Beijo e tchau à todos os cupcakes e pirulitos, senhorita. Porque a partir de hoje, eles se foram para sempre.”
Ela gritou de novo e eu não aguentei: a segurei forte no braço e olhei nos olhos dela. Nesse momento, ela começou a se debater contra mim, todos os cotovelos e joelhos, como num surto. Ela não tinha luz. Eu podia sentir minhas costas doendo dos golpes, e agora eu estava chateado por ela estar fazendo isso, embora eu era o único que tinha tomado a decisão estúpida de segurá-la com força.
Eu subi as escadas com ela para o quarto dela e colocá-la no chão. Então eu saí e tranquei a porta do lado de fora (eu trocou as fechaduras na porta especificamente para esta finalidade, que é provavelmente uma violação dos oito códigos de incêndio diferentes). Desci o primeiro degrau das escadas e ela imediatamente começou a bater na porta, gritando absurdamente. Sua raiva parecia ilimitada, como se ela pudesse manter-se dias assim, sem a necessidade de sono ou comida ou ar. Crianças sempre terão mais resistência do que você.
Meu outro filho veio do porão.
“Papai, que está acontecendo?” ele perguntou.
“Fique aí. Não vá para perto de sua irmã agora.”
Nesse momento, ao ouvir nossas vozes, minha filha de alguma forma conseguiu gritar ainda mais alto, como se segurasse um megafone. Corri até as escadas muito rapidamente subindo de dois em dois degraus e abri a porta. Abri a porta e ela deslizou por mim, como um jato, e desceu as escadas. Quando ela viu o irmão, ela correu e bateu no peito dele com a mão aberta.
O olhar que ele devolveu a ela depois que ela fez isso me fez querer chorar para sempre.
Ele parecia tão profundamente magoado. A mágoa pura, como se todo o seu mundo tinha sido afundado.
Ele não conseguia entender por que alguém iria querer machucá-lo assim, e muito menos a sua própria irmã, a quem adorava tanto. Eu podia ver o sentimento de traição em seus olhos.
Nesse momento, surgiu em mim um sentimento inexplicável, que muitos sentem, mas talvez não devessem.
Peguei minha filha próximo a mim, enquanto meu filho uivava de dor.
“Por que você bateu nele?!”
“Eu o odeio!” ela disse. “Ele é o pior irmão do mundo inteiro e eu vou cortar sua cabeça aberta!”.
“Você vai se desculpar com ele agora.”
Leia também: Não exija que seu filho peça desculpas
Ela aproximou-se e colocou os braços firmemente em torno dele. Por meio segundo, foi um gesto de amor.
Mas então ela riu loucamente.
Quando minha filha nasceu, eu ganhei um cartão agradável do meu tio dizendo que o riso de um filho seria o som mais doce que eu ouviria na vida. Mas isso era uma grande mentira. As crianças têm dois tipos de riso.
O primeiro é o tipo genuíno, o tipo que meu tio estava falando. O outro é o riso sarcástico, de estar aprontando, fazendo algo errado. Eu temo esse tipo de riso porque isso significa que alguém está prestes a chorar ou algo está prestes a acontecer. A partir do momento em que uma criança tem 4 ou 5 anos, este é o maior tipo de riso que você ouve delas.
A menina começou a apertar seu irmão mais e mais. Meu filho estava agora ainda mais chateado do que quando ela bateu nele pela primeira vez.
“Solte-o agora!” Eu exigi.
Mas ela não o fez. Ela o pegou do chão, como um lutador profissional prestes a executar um adversário. Neste momento, o menino estava em soluços.
Eu gritei para ela: “O que acontece com você hoje? Deixe ele em paz, caramba!”
Ela sorriu e me abraçou e disse: “Eu te amo”. Ela não queria me dizer nada disso, o que só me irritou ainda mais.
“Saia de cima de mim”, eu disse a ela. “Você não está sendo sincera e eu não posso suportar isso.”
Mas ela não parava de me abraçar. Ela agarrou-se firme, quase tirando minha espinha. As crianças fazem isso o tempo todo. Eles apenas pendurar em você, como se você fosse uma barra de musculação. Eu a sacudi e ela começou a me bater no estômago.
Ela tinha 5 anos, mas batia forte! Ela soltou outro grito horrível e encheu a casa com uma áurea horrível. Agarrei-a e arrastei-a de volta para o quarto, onde a coloquei sobre o tapete. Ela estava rindo agora. Quanto mais eu parecia me irritar, mais ela ria.
Eu tive que usar parcialmente aquela última gota de força de vontade, pois o que eu mais queria era dar uns bons tapas no bumbum.
Surgiu de mim uma voz tão estranha que parecia pertencer a algum outro ser. Uma voz horrívelmente aterrorizante. Se a minha mulher tivesse ouvido aquela voz no início de nosso relacionamento, ela nunca teria se casado comigo. Peguei a menina pela queixo e com aquela voz horrível, questionei:
“O que está acontecendo com você ?! VOCÊ NÃO está sendo respeitosa! Está agressiva! Você vai ficar aqui a noite toda ou eu juro por Deus você vai se arrepender.”
Eu queria que ela se assustasse. Passou nesse momento um filme em minha mente com o meu pai gritando comigo quando eu era uma criança e, oh, como eu odiava. Uma vez, eu derrubei uma cortina de chuveiro e ele gritou tão alto para mim que eu pensei que meu cabelo ia cair. Ele me matou de susto. Eu teria feito qualquer coisa como uma criança não vê-lo gritar de novo. Mesmo agora, muitos anos depois, temo quando ele levanta a voz.
Então olhei para a minha filha e esperava que ela desintegrar-se, assim como eu fiz no passado aos gritos de meu pai.
Eu esperava que ela, finalmente, me desse um maldito RESPEITO. Isso é o que todos os pais querem desesperadamente, e isso é o que os leva a agir como loucos quando eles não os obtém.
Certamente a voz assustadora que saiu de dentro de mim e eu nem conhecia, me concederia tal dativa naquele dia.
“Faka.”
E ela continuou rindo. Eu não podia mais vê-la. Eu não podia ver a menina bonita, inteligente, engraçada que eu sabia que ela era. Tudo o que eu podia ver era esse animal horrível. E tudo que eu conseguia pensar era: Que momento é esse?
Este é o momento em que a minha relação com o minha filha se transforma em algo permanentemente tóxico.
Sempre acreditei que você poderia criar seu filho de inúmeras maneiras e, desde que você amasse incondicionalmente, você teria relativamente algum êxito. As crianças nascem boas, que é o que eu acreditava. Eles nascem boas e se você os ama o suficiente, eles ficarão desse jeito. Amáveis.
Você espera que o amor será tudo que é necessário para manter seu filho fora da cadeia e sua filha fora da indústria da pornografia. Mas agora a menina estava rindo como um ser não humano e eu estava com medo de como sairíamos daquela situação toxica, momento que parecia que o fosso permanente entre nós iria começar, como se os cinco anos anteriores de amor tivessem ido por água abaixo.
A idéia de que eu poderia amá-la e fazer o meu melhor e ainda ver tudo dando terrivelmente tão errado era insuportável. Eu estava com medo de que a luta não fosse acabar nunca, que ela nunca iria se acalmar e ser apenas, aquela garotinha tão amada nesses 5 anos que passamos juntos.
E eu estava chateado. Muito chateado. Eu tentei o meu melhor para abaixar minha voz.
SANTA PACIÊNCIA, olhai por nós!
“Por favor,” eu disse a ela: “Eu estou muito perto de ferí-la agora. Por favor, não me faça te bater. Por não falamos sobre o jantar? O que você gostaria para o jantar?”
“Balas”.
“Sem doces.”
“Doces!”
A Voz retornou. “JÁ DISSE QUE NÃO TERÁ DOCES!” Eu bati no chão com força suficiente para quebrar a minha mão. E ainda assim ela estava sem medo em seus olhos.
“Faka.”
“Tudo bem”, eu disse. “Você quer que eu bata em você? Aqui vamos nós.”
Eu peguei-a em meu colo e ela alternava entre risos e gritos. Esta foi a primeira vez que apanharia.
Olhei para seu traseiro e tentei descobrir uma forma de ação. Você puxa as calças para baixo? Deixa as calças? Isso era estranho. O quão duro deve-se bater? Como faz para doer e não machucar? Eu dei um tapa de teste delicado e nada aconteceu. Então eu batia um pouco mais forte e ela continuou rindo.
Eu me senti como um idiota. Eu não sei mesmo como bater tornou-se um método de punição corporal. É bizarro.
“Por favor, eu não brigar assim com você.” – disse exausto.
Ela riu na minha cara, praticamente cuspindo nela com o furor de seus risos. “Faka.”
Novamente com essa p**** de palavra. Eu queria que ela falasse um palavrão real para que pudéssemos simplesmente acabar com isso.
A raiva borbulhou novamente e pude sentir dois tons da mesma. Eu estava zangado com a minha filha não me respeitando, obviamente. Mas a maior raiva veio da minha própria auto-aversão. Eu estava falhando como um pai. Miseravelmente. E mesmo que eu estivesse falhando em privado, não me sinta dessa forma. Eu sentia como se o mundo inteiro estivesse assistindo minha derrota. Essa foi a verdadeira fonte de raiva, esse sentimento de incompetência, de tão óbvia e visível impotência perante uma garotinha de 5 anos, que eu amo mais que tudo nessa vida.
Quando eu era solteiro e via os pais de perder a paciência com seus filhos, eles franziam as testas. Eu nunca vou ser assim, eu prometi a mim mesmo. Mas as pessoas sem filhos são pateticamente ingênuas. Eles não sabem o que é como passar catorze horas consecutivas com uma criança. Eles não entendem como essa extensão enorme de tempo permite que cada emoção humana escondida possa ser descoberta: raiva, medo, ciúme, amor … tudo isso. E não entendem o quanto pentelhas as crianças podem ser. Eles não têm idéia.
Quando eu estava no ensino médio, eles trouxeram uma senhora que tinha viajado para o Pólo Sul para falar com a gente. Ela nos disse que, em um ponto durante a viagem, ela ficou com tanto frio e tão desesperada por comida que ela comeu uma barra inteira de manteiga. Todos nós ficamos indignados. Educar filhos é semelhante. Você acaba agindo da forma que seu eu, anos atras, teria ficado indignado. O que eu estou basicamente dizendo é que ter filhos é como estar preso na Antártida. A gente diz que nunca comeria uma barra de manteiga no jantar, até que fique na mesma situação. Por isso nunca julgue sem vestir os sapatos do outro.
(…)
Estamos constantemente julgando e classificar outros pais e mães, apenas para se certificar de que eles não são melhores do que nós. Assim nos sentimos melhores e melhor, nossos filhos mais educados. Eu sou tão culpado quanto qualquer um. É só ver um pai no supermercado com seu filho vidrado com um tablet na mão para este ser rebaixado ao status de pai de merda do ano…É entediante!
Eu sinto a pressão para viver até um ideal parental que ninguém provavelmente jamais tenha alcançado. Eu sinto a pressão de proteger meus filhos das um trilhão de páginas de pornografia na Internet. Eu sinto a pressão para ganhar as quantidades desmedidas de dinheiro necessárias para uma educação supostamente “de classe média” para as minhas crianças… PRESSÃO PRESSÃO.
E a pior parte é que nenhuma dessas forças externas podem ser maior do QUE A PRESSÃO QUE COLOCAMOS EM NÓS MESMOS. O fato de eu ter recorridos às palmadas me fez sentir como um criminoso. Eu senti como se alguém tivesse filmado todo o episódio, eu estivesse sendo jogado na cadeia para sempre. Talvez eu merecia estar lá. Mesmo contando essa história agora, eu sinto que estou poupando os detalhes, porque eu estou com medo de admitir o quão duro fui quando peguei o braço da minha filha.
Vamos admitir, eu bati uma vez. Eu não sei dizer em detalhes onde ou por quê, porque isso me faz sentir mal e também eu não quero que você leia este texto e exija que os meus filhos sejam tirados de mim.
Não me lembro de meu pai me bater. Ele pode ter gritado algumas vezes, mas nada tão dramático. Por que eu estava sendo muito pior que meu pai? Por que minha filha não me respeitou ou me temeu da mesma forma que tinha medo de meu velho? Por que meus filhos sempre exigem mais de um minuto de paciência do que eu já tenho? E por que eu estava perdendo minha paciência e não sabendo negociar com uma menina de 5 anos?
A menina ainda estava gritando e me dirigindo para o precipício da loucura, e eu procurei em torno na minha mente por algum tipo de solução criativa. Eu definitivamente queria puní-la. Eu não poderia mesmo lembrar o motivo pelo qual estávamos brigando, o que acontece muito quando você briga com uma criança. A briga se torna sua própria razão de ser. Eu queria provar o meu domínio sobre o agregado familiar, para recuperar o controle. Eu queria ganhar, o que é tolo porque não há nenhum prêmio ao derrotar em uma discussão uma menina de 5 anos de idade!
Então eu pensei: um chuveiro. Um balde de água fria. Isso é humano, certo? Não é ferir a criança. Ele apenas oferece uma dose de surpresa refresco. Quanto mais eu refletia sobre isso, mais eu estava convencido de que era uma boa ideia, que não é verdade.
“Ouça-me”, eu disse para a menina. “Eu preciso que você se acalme e eu preciso que você me prometa que você nunca vai bater o seu irmão novamente. Ou então, você vai receber um banho de água fria.” Secretamente, eu acho que eu queria que ela me obrigar a fazer isso. Parecia uma experiência digna.
“Faka.”
“Tudo bem então.”
Agarrei-a e trouxe-a para o banheiro. Liguei o chuveiro enquanto ela tentava escapar.
“Não, papai! Nãoooooooo!” ela gritava.
“Você vai ter que aprender.”
Eu a coloquei lá dentro e quando a água fria foi descendo em seu corpo, o tom de sua gritos mudaram de raiva para tristeza. Eu podia ouvir a mudança. Eu podia sentir isso, vazando toda a raiva venenosa para fora de mim. Sua pele ficou tensa, com o frio e ela tentou desesperadamente fugir da água, como se fosse atacá-la.
Que diabos estou fazendo?
Eu a puxei para fora e ela se agarrou a mim, chorando demais! Ela estava inconsolável.
“Querida, eu só queria que você escutasse.”
E ela me olhou bem nos olhos e gritou, “mas eu te amo!”.
Isso era tudo o que precisava dizer para me deixar totalmente derrotado.
Ela me amava e eu tinha acabado de fazer algo que fez parecer que eu não a amava de volta. O arrependimento foi imediato.
Eu a amava. Eu a amava mais do que tudo no mundo, e eu nem sequer sei como chegamos a este ponto e agora que estávamos naquela situação eu me sentia tão idiota, tão incrivelmente mudo. Peguei uma toalha, a cobri e eu chorei em seu ombro.
“Sinto muito”, eu disse a ela. “Eu sinto muito. Eu também te amo. Eu só … Eu odeio brigar. Eu não quero brigar com você. Eu sou um mau pai? Eu sinto que eu estou fazendo um trabalho horrível.”
Eu queria que ela dissesse: “Não”. Eu queria um desses pequenos momentos de filme onde a criança vira um ser subliminar e oferece palavras de sabedoria para um pai falhando.
Mas a menina simplesmente me ignorou. Se secou e foi para seu quarto se trocar. Fui até lá e ela se deitou de bruços no chão, batendo o tapete em frustração. Meu filho saiu da sala e veio até a mim, como um cachorro que se aproxima para cheirar um corpo morto.
“Papai, tudo bem?”
“Eu estou bem. Obrigado. Muito obrigado por perguntar. Eu amo vocês.”
Ele saiu.
Toda vez que tenho uma briga com meus filhos, eu sinto que eu tenho que começar do zero. Eu sinto como se tivesse caído de volta para baixo da montanha, como se todo o bom trabalho que eu coloquei antes tenha ido para o lixo.
Tudo que eu quero são pequenas tiragens de dias em que eu possa ser um bom pai. Eu tenho uma visão na minha cabeça de um relacionamento perfeito com os meus filhos, que envolve respeito mútuo e muito carinho. Eu não sei se isso é uma coisa real ou apenas algum sonho que só aumenta a PRESSÃO.
Tudo que eu queria era chegar lá, e eu não ia desistir. É tão mais fácil transformar seu filho em um vilão para se poupar de seu papel, mas você não pode. Você não pode deixar a miséria vencer, porque ela vai destruir tudo.
Eu me recompus e jurei que não voltaria a jogar gasolina no fogo para acabar com um conflito.
Minha esposa entrou pela porta e eu estremeci para lhe dizer tudo o que tinha acontecido: a voz, o agarrar o braço, a palmada, o chuveiro. Eu não queria que ela soubesse de nada. Mas eu tenho uma boca grande. Nada permanece dentro deste cofre por muito tempo.
“Tudo certo?” ela perguntou.
“Ela bateu no irmão e eu perdi as estribeiras”, eu disse.
“Está tudo bem.”
“Eu bati nela. Eu sou tão horrível. Eu bati e depois e eu tentei dar-lhe um banho de água fria para fazê-la se acalmar e aquilo foi estúpido.”
A minha filha desceu as escadas e não houve mais gritos ou risos maldosos. Desceu uma menina real, a pessoa pela qual que eu daria minha vida. Ela não parecia ter quaisquer sentimentos ruins sobre nossa briga pelo poder.
“Posso pegar alguma coisa para você comer?” Eu perguntei a ela.
“Macarrão com queijo”, disse ela.
Finalmente, uma resposta sincera. Isso era tudo que eu sempre quis. Sinceridade plena. Eu a abracei e disse a ela que a amava e riu. Uma boa risada.
Ela foi brincar e eu comecei a escalar a montanha “do educar filhos” mais uma vez, na esperança de um dia me orgulhar da educação que propiciei a eles, errando sim, mas sempre na maior boa intenção de querer acertar”.
Extraído em língua inglesa do site Dead Spin, o qual usou texto de “Alguém pode se machucar” de Drew Magary, Gotham Books. Traduzido e adaptado pelo Blog Mamãe Plugada.

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https://www.mamaeplugada.com.br/2016/03/maes-escalam-uma-montanha-por-dia/

Anônimo
16 de agosto de 2020 at 16:18Segunda parte
No outro dia, aconteceu uma tragédia na qual o pai vai se sentir muito culpado. A menina que foi agredida violentamente pelo pai estava brincando com suas amigas na rua quando veio um carro em alta velocidade e a atropelou em cheio. As outras crianças não ficaram feridas. A mãe escutou o barulho e ao ir na rua entrou em desespero pelo que viu. Ela correu na rua e viu a filha desmaiada e muito ferida. Ela chamou o marido, ele correu em seguida e caiu de joelhos desesperado. Mas quando a ambulância chegou em 20 minutos nada mais pode ser feito. A menina de apenas cinco anos não tinha resistido e acabou perdendo a vida de uma forma tão brutal. Os ferimentos eram muito graves, ela tinha batido com a cabeça e sofrido múltiplas fraturas. A mãe caiu no choro e o pai ficou deitado no corpo da filha. No velório e no enterro foram muitas homenagens e havia centenas de pessoas. O irmão da menina não parava de tanto soluçar. O pai então passa a se culpar por tudo o que aconteceu e de repente na hora do sepultamento ele interrompe, abre o caixão e tenta ressuscitar a filha de toda forma possível. Respiração boca a boca, massagem cardíaca, pulsação, nada adiantou. Então ele retirou a menina do caixão tentando trazê-la de volta a vida deixando as pessoas chocadas e se colocou deitando no objeto pedindo pra ser enterrado no lugar da filha. A esposa ficou horrorizada e pediu para o marido se levantar do caixão. Ele negou e disse que a filha não será enterrada, a levará de volta pra casa. Todo mundo ficou horrorizado com a atitude do homem, o corpo da menina estava ali largado no chão de forma tão desrespeitosa. Então ele obedeceu e teve que dar o último adeus a sua amada filhinha. Mas assim que todos deixaram o cemitério, o homem ficou ali debruçado diante do túmulo, a esposa perguntou se ele vem:
“Pode ir na frente, eu vou ficar mais um pouco!”, respondeu o homem.
“Tá bom!”, compreendeu a esposa que foi indo de mãos dadas com o filho.
A partir daí o homem passou a ter um remorso muito grande e pediu pra Deus o levar embora desse mundo. Ele passava a se culpar pela morte da filha, percebeu que a menina havia morrido magoada com ele. A partir daí a vida dele nunca mais foi a mesma, ele passou a sofrer injustiças por parte de pessoas que se revoltaram com a atitude dele. Na frente de sua casa ele sofreu um linchamento de uma multidão, muitas pessoas o chamavam de assassino, o acusaram de ter matado a própria filha. O filho presenciou tudo, chegou a se aproximar e gritar:
“Parem com isso! Não batam no meu pai! Ele não tem culpa de nada!”.
Mas não adiantou, o homem foi brutalmente espancado. A violência durou 20 minutos até que ele não suportou os ferimentos causados pela fúria da sociedade e acabou falecendo. O filho gritava: “Não! Papai!”.
Em seguida a esposa veio e se desesperou ao ver o marido morto. Ela e o filho se abraçaram e choraram muito. Depois ela acabou se deitando sobre o corpo do marido. Agora só restaram mãe e filho. O menino faz acompanhamento psiquiátrico, a mãe consume remédios todos os dias. O que era pra ser uma história bonita acabou terminando de forma trágica
E quando a paciência acaba? | Mamãe Plugada
24 de abril de 2016 at 18:00[…] Ele não sabia mais o que fazer. A criança não o respeitava de maneira alguma e ele, já fora de si, tinha medo de fazer algo que a machucasse, apesar da vontade. Texto longo, mas riquíssimo. Quem quiser o ler na integra, clique aqui. […]
Belinha
13 de abril de 2016 at 00:00O texto é precioso , acho que mtos pais já se depararam em situações parecidas , realmente nos sentimos péssimos quando não sabemos a hora de parar !!! Obrigada por compartilhar , o texto é de grande valor !!!