Meu relato de parto: mais de 30h de bolsa rota

Na expectativa de um parto normal, passei 30h com bolsa rota, momentos de trabalho de parto ativo naturais e induzidos, mostrando que nem tudo vem como planejamos, mas que precisamos caminhar pela rota que acreditamos: parto humanizado é aquele em que se estimula o afeto, mas acima de tudo, permite escolhas e respeita limites.

Como relatei a vocês, em meados de réveillon resolvi contratar uma equipe para me auxiliar nessa tentativa de um parto mais humanizado – e de preferência normal – após uma cesária (Clara) e um aborto espontâneo (segunda gestação).

Acostumadas a trabalhar com o médico obstetra que passo e sou fã do trabalho – Dr Danilo Biegas, Letícia e Camila são enfermeiras obstetras super experientes nesse desejo com o qual entrei de cabeça no fim dessa gestação do Lucca. Mesmo com decisão de última hora, eu estava muito bem amparada.

04/01 as 3am – acordei de madrugada molhada. Achei estranho, mas mesmo com a bexiga solta desta gestação, nunca havia tido escapes dormindo. Como dormir também é difícil nessa fase de 39 semanas AND alguns dias, apenas fui ao banheiro, me troquei e voltei a dormir.

04/01 as 5:30h – acordei novamente molhada. Fui ao banheiro, além da água que saiu, nitidamente eu havia perdido o tampão amniótico. Fotografei e enviei para as enfermeiras, que confirmaram ser o tampão e que provavelmente eu teria tido a bolsa parcialmente estourada, estava saindo como um chuveirinho.

Um dia antes, tinha passado por consulta, cardiotocografia fetal e visto que o bebê estava ótimo, porém colo de útero firme, alto e sem nada de dilatação.

Vida que seguia. Conversamos com o obstetra, eu poderia esperar em casa até 24h para esperar meu corpo entrar em trabalho de parto naturalmente, já que o bebê estava sendo constantemente escutado, avaliado e o líquido amniótico que saia estava clarinho. Nesse intervalo de tempo, 90% das gestantes entram em TP.

Então olhei para minhas unhas e pensei: “ainda tenho tempo: quando conseguirei fazê-las novamente?”, kkkkk, parece até piada, mas tentei me manter calma, para que a ocitocina não fugisse de mim.

Fiz eu mesma as unhas, fui ao supermercado abastecer a geladeira (ajuda muito nos primeiros dias do bebê), fui andar no parque e levar minha filha brincar com os patos e, por fim, fazer minha sessão de acupuntura para auxiliar a entrar em trabalho de parto.

Na acupuntura, “lavei” a maca: a bolsa estourou de vez.
Então terminei a sessão, fui pra casa e tentei descansar: coloquei essências, velas, música tranquila, me conectando com o bebê, para o que passaríamos nas horas a seguir. Clara e meu marido foram pescar, e eu dormi. A noite, comecei a sentir algumas contrações e as meninas ficaram comigo um tempão, me ensinando exercícios com bola, técnicas de respiração e conversamos muito sobre as experiências delas.

Fui tomar um banho relaxante na banheira, me conectando com aquelas contrações, fazendo do medo das dores que sempre me assombraram, de repente, se transformassem num desejo: a “dor amiga”, que traria para mim meu bebê do jeito que imaginava. Que indicaria os momentos em que precisamente eu precisaria fazer força. A dor que guia.

Deitei e, de madrugada, a ocitocina gosta de aparecer. As contrações começaram a ritmar por volta das 3 da manhã e, com as meninas ao meu lado, fazendo os exames necessários, me apoiando com segurança, eu estava em paz em casa. Fomos caminhar e eu chegava a agachar na rua quando as contrações eram mais fortes.

Clarinha dormindo e um longo processo de TP que daria início naquela madrugada, com todo suporte para que fosse seguro e humano. A ideia era ir para o hospital quando estivesse para nascer, mas como estava com bolsa rota, eu tinha um prazo para isso.

Amanheceu, e eu estava em trabalho de parto só com 1cm de dilatação. Porém, após 24h com bolsa rota, o obstetra solicitou que fôssemos até o hospital para administrarmos antibióticos, avaliar o bebê e resolver o que fazer.

Tivemos uma longa conversa. Toda a equipe conectada, numa sintonia muito bacana. Optamos por entrar com os antibióticos e induzir a parto normal com ocitocina, já que meu trabalho de parto natural havia estacionado e eu não teria mais tantas horas para ficar em segurança com bolsa rota. Riscos para o bebê jamais. Eu não poderia também induzir de outra forma, afinal, tenho uma cesária e um aborto espontâneo anterior.

Resolvido administrar a ocitocina, começamos com doses mínimas, mas foram o suficiente para que eu rapidamente entrasse em um trabalho de parto mais ativo. Foram 4h com ela na veia, eu ia para a bola de pilates, para o chão, para a água e urrava de dor. A água foi o lugar que mais me acalmou e cheguei a inundar o quarto do hospital, pois passei horas ali.

Depois de horas, com contrações de 40-50s num intervalo máximo de 1minuto entre elas, eu não aguentava mais. Me sentia fora de mim, uma dor que me inundava de uma forma que repensei: “não precisava ser assim”.

Pedi para parar a ocitocina sintética, mas as contrações não paravam: e eu, humildemente já havia reconhecido que havia superado à tempos meu limite da dor.

Fui reavaliada e estava com poucos cm de dilatação, apesar do colo do útero já molinho e o bebê descendo… eu teria a opção de esperar mais um pouco naquilo – sem saber ao certo quantas horas mais nem sequer se daria certo – ou ir pra cesária. Como a dilatação era pouca, anestesia naquele momento não faria sentido. E eu, após quase 30h de bolsa rota, já tinha atingido o limite.

Eu comecei a implorar por analgesia e fomos para a cesária.

Toda a equipe que me acompanhou nesse parto estava ao meu lado. Me senti tão abraçada, amparada.

Foi uma cesária super indicada e linda. Emocionante.

Se me perguntarem se eu me arrependo, afirmo em letras garrafais que não: vivi mais de 30h de uma experiência única que eu quis viver (e certamente me arrependeria se não tivesse tentado). Lucca escolheu a data em que viria ao mundo, entramos juntos nessa jornada que é a chegada, e ter entrado em trabalho de parto ativo foi importante tanto para mim, quanto para ele.

Foram 8h de trabalho de parto sem indução em casa (latente), 4h de trabalho de parto ativo induzido, mais de 30h de bolsa estourada.

Lucca nasceu de parto cesárea, as 14:54 de 05/01, com 52 cm e 3,580kg e pegou o peito – com a pega correta – assim que veio ao mundo. Nasceu super saudável, esperto, e numa mágica conexão a mim.

Eu só sinto gratidão. Era exatamente o que eu precisava: entender que nada está sob controle, mas ainda assim, percorrer a trilha do que desejamos e acreditamos, sempre nos leva a um lugar de luz. Mesmo que de forma diferente da que planejamos.

Um beijo, Marrie

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