Voltar ou não a trabalhar após o termino da licença maternidade? Decisão extremamente difícil, mas que certamente já passeou pelo menos uma vez pela mente de qualquer mãe de primeira viagem durante o período de licença.
Como diz o ditado, “só estando na pele para saber o sabor e a dor de ser o que é”. Portanto, esse não é um post do que deve-se ou não fazer, afinal não há fórmulas para a vida humana em geral e cada um sabe o que é melhor para si. Mas rola identificação que as vezes abraça, acalenta e ajuda. Respeito demais a decisão difícil – qualquer que seja ela – que nós mulheres e mães tenhamos tomado quando pensaram neste momento tão delicado.
Mas hoje contarei a vocês a MINHA DECISÃO, quem sabe alguém se identifique com meus sentimentos, sinta-se abraçado e eu possa ajudar de alguma forma.
Leia mais no livro
Muitas variáveis afetam esta decisão: satisfação profissional da mulher, contribuição da mulher para a renda da família, apoio do companheiro, se “vale a pena”, e por ai vai…Darei uma voltinha no passado com ajuda da “maquina de túnel do tempo” e me abrirei, para contextualizá-los da minha situação na época.
Fui criada para ser uma mulher independente e a lutar com unhas e dentes por meus objetivos, por mais distantes que parecessem. Apesar de ter sido criança que diziam ser inteligente, com a separação de meus pais e brigas entre eles, que insistiam que eu tomasse algum partido, passei por uma fase de conflito existencial e a fazer questão de não ir mais tão bem na escola. Como se fosse um troféu. Hoje olho para trás e vejo uma garotinha que talvez quisesse de alguma forma estar chamando atenção, para que o foco se deslocasse para a briga do ex casal e se voltasse à criança. Claro que isso ocorria de forma inconsciente, hoje – adulta – consigo analisar melhor a situação, afinal me conhece mais profundamente.
Um belo dia – já maiorzinha – os preceitos da base da minha educação começaram a gritar dentro de mim: “Mulher tem que ser independente”, “corra atrás dos seus sonhos, ninguém fará isso por você”,…
E naquele momento da adolescência, lembro da menina ter matutado: Como seria independente?
A resposta veio de dentro de mim, como que uma vozinha gritando em meu interior: “o estudo é o caminho para suas conquistas e independência”.
Segui à risca. Naquele momento eu era uma boa aluna, mas não esforçada. Então tracei um plano: queria ingressar nas melhores universidades do país, para conseguir os melhores empregos sem precisar de indicação (por méritos próprios – independência, sem usar de networkings) e ter um salário tão bom quanto de meu marido, para nunca precisar depender dele e, podermos desta forma, viver numa relação de igual para igual (era exatamente esta frase que minhas 2 avós sempre “buzinaram” nos meus ouvidos).
Meu objetivo era nitidamente a busca da minha independência para a felicidade. Mais tarde fui entender que para ser feliz, precisa de muito mais que isso, rsrsrs. Mas, naquele momento, era isso que valia como minha verdade. E me afundei em estudos. Horas e horas trancada num quarto estudando, até desenvolvi uma miopia (nunca tive, desenvolvi nessa fase. Hoje tenho 4 graus).
Como tinha ficado um bom tempo ‘relaxada’ nos estudos, não estava com uma base forte em exatas, por exemplo. Então, com a maturidade dos meus 16 anos, peguei os livros desde a 5 serie e refiz TODOS os exercícios de matemática, durante uma das minhas ferias escolares. Comecei a reconstruir os alicerces teóricos, as bases, para poder disputar por uma das vagas mais disputadas do pais. Desta forma, estudando muitas horas por dia, passei em Ciências Econômicas na USP, UNESP e UNICAMP.
Ingressei na USP. Terminei a Graduação com média Global em todas as matérias de 8,8. Fui a idealizadora e fundadora da Empresa Jr de Economia e fiz pesquisas científicas (fui bolsista CNPq). Estagiei, a convite de um professor universitário, na Bolsa de Valores. Morei no exterior para adquirir fluência no Inglês. Voltei para o Brasil, mais especificamente para a casa de minha mae, em Piracicaba, interior de Sao Paulo. Fiz MBA em Inteligência Competitiva (FIPE, departamento de Economia da FEA-USP). Em três meses, consegui um emprego em Sao Paulo, capital, e precisaria me mudar em 1 semana. Procurei na internet e achei uma pessoa para dividr apartamento (nao a conhecia, mas trouxe minhas tralhas e parti, sem olhar para trás . No primeiro ano de trabalho, consegui dobrar meu salário. Trabalhei em renomadas empresas, como Camargo Correa, onde tive promocoes por merito (uma delas de 25% de aumento) e bati todas as metas para recebimento de bônus, no tempo que estive lá. Até que, com 30 anos, eu era responsavel pela área de análise de investimentos de um Fundo de Investimentos Norte Americano no Brasil e ganhava muito bem para minha idade, mais que meu marido (objetivo atingido). UFAAAAA….
Até que me perguntei: “Pra que isso”, “o que faço com isso agora”, “trabalhar muito mais horas do que o normal e viver o trabalho – sem envolver família- vale a pena?”.
Pausa para este momento!
Você esta se perguntando agora: O que esse papo “entrevista de emprego” tem a ver com Maternidade? Não sei se vocês notaram, no meio desta história toda, de mulher independente e tal, que não citei em momento algum o desejo de ser mãe … Pois é.
Eu não havia tido tempo na vida para pensar sobre isso, estava muito focada na independência financeira, tão cega pelos meus objetivos racionais, que não parei para ouvir meu coração Meu pai dizia: “um dia o relógio biológico da maternidade vai soar em você”. Não sei se isso acontece com todo mundo, mas, em relacao a mim, ele acertou na mosca!
Como toda mulher moderna, com metas, prazos e cronogramas, quis engravidar com 30 anos. Via minhas amigas com dificuldade para conseguir engravidar e achei que, em media, eu demoraria 1 ano para conseguir. Mas não. Foi de primeira – talvez por ter emagrecido 10 kilos numa Dieta Dukan – para minha felicidade e susto (leia sobre a relação fertilidade X dieta dukan aqui).
FELICIDADE, pois colocamos a gravidez em meus planos. SUSTO, pois não havia tido tempo para pensar em como organizar minha vida como mãe e executiva que era demandada por muitas horas trabalhando fora de casa.
Como estava minha vida no momento que me vi grávida
Meu marido é piloto de avião fica muitos dias fora de casa. Morávamos longe (em outra cidade) de todos nossos familiares (resolvemos retornar recentemente para perto dos familiares), portanto não podíamos contar com esta ajuda. E eu, além da carga horária muito acima das 8h diárias (sim, sempre trabalhei muitas horas), viajava constantemente e ao “sabor da vontade dos negócios” (não eram todas as segundas, por exemplo, o que seria muito melhor para eu me planejar com filhos), ao ponto de eu ter chegado a fazer ponte aérea RJ-SP as 6AM e retornar no voo das 20h, para “singelas” reuniões de negócios (considero que o mundo corporativo ainda valoriza muito aparências em detrimento de resultados, apesar de jurarem fazer o contrário).
Quando contei a equipe de trabalho que estava grávida (eu estava numa felicidade imensurável, em “estado de graça”), foi quando a briga interna, em mim mesma, começou. Realizei, naqueles momentos de gestação, como o mundo corporativo, principalmente o mercado financero, é machista. Sentia que olhavam para mim não mais como a funcionária com alta bagagem e capacitação, mas como um custo. E, como ocorre com muitas mulheres e mães, eu também não tive apoio, muito pelo contrário, passei muito nervoso. Perdi a vontade de continuar naquele mundo (hormônios da gravidez?), porém eu valorizava demais toda o caminho percorrido que eu tive para chegar até la. Conflitos internos a tona!
Passaram os 9 meses. Tirei licença maternidade. Quando Clara nasceu, tive a certeza que nada na minha vida importava mais do que ela, mas a decisão de parar temporariamente de trabalhar, ao mesmo tempo que me amedrontava, não saia da minha mente. Passei os 4 meses de licença + licença amamentação + férias pensando.
Decidi, pela primeira vez em minha vida, não planejar, “deixar a vida me levar”: Coloquei Clara numa escolinha (12h) e fiz uma semana de período de adaptação (fiz um post sobre isso na época). Paguei para ver, mas no fundo sabia que seria insustentável. Trabalhava em jornada de 44h semanais, ou seja, 9h por dia + 1h de almoço em condições normais de temperatura e pressão. Se algo acontecesse, o mundo poderia cair, se a empresa não estivesse em primeiro lugar, a coisa ruim.
Além disso, em São Paulo, no mínimo gastamos 1h para ir e 1h para voltar, o que significava que, nestas 12h de escolinha da Clara, eu apenas “bateria o cartão , como chacotam os profissionais do mercado financeiro, e a caneta teria que cair todos os dias no exato momento que a jornada de trabalho terminasse. Percebi que não seria uma boa profissional (pelo menos não naquela empresa, com aqueles padrões) e nem uma boa mãe. A empresa também achou por bem que eu não teria como prioridade o trabalho, “havia mudado muito”.
Conversei muito com meu marido, fizemos as contas e, como não gosto de nada pela metade, sou intensa em tudo o que decido nesta vida, resolvi parar temporariamente com a carreira de Economista. Até procurei outras opções de empresas, mas tive umas respostas que me deixaram engasgadas. Como se todos tivéssemos vindo de chocadeiras.
Eu queria um trabalho que eu nunca encontrei. Um trabalho que ninguém me olhasse torto por precisar sair no meio do expediente para levar minha filha ao pediatra, pois entenderia que eu produziria em outro momento. Que o que importa é o resultado sim, e que para produzir, o ser humano precisa estar feliz. E, para mim, felicidade é também o meu equilíbrio familiar.
Por isso, nem procurar mais, procurei. E quando parei, fui procurada por grandes empresas, mas recusei a oferta. Não era hora, mesmo amando o que fazia. Mas aquele não era o momento. E parei. Parei pensando em voltar após 2 ou 3 anos, imaginando que com meu currículo eu conseguiria me reinserir facilmente de novo. Passaram-se três anos já e ainda não tentei retornar.

Não me arrependi.
Por um tempo, atuei como dona de casa, antes do blog Mamãe Plugada começar a dar sinais de que viraria uma empresa.
Nesse meio tempo, eu senti sim muita falta de trabalhar, de me sentir valorizada profissionalmente e do meu salário.
Hoje digo que sou uma mãe plena, realizada com a maternidade e com a família que contrui. Tenho muita felicidade em poder ter tido a oportunidade de tomar a decisão que tomei e poder acompanhar de perto a cada desenvolvimento da primeira infância da Clara. E sou também uma mulher muito viva, de alma destemida e acredito que por isso, consegui me reinventar dessa forma, me refazer profissionalmente.
Conto mais dessa história nesses posts:
De economista, passando à dona de casa e agora empreendedora digital
E muito mais histórias e dilemas da maternidade como esses, no livro:
Meu primeiro livro impresso “Desapareci ao virar mãe, mas reencontrei-me”
Um beijo, Marrie
Leia mais em:
Coisas sobre trabalhar de casa que ninguém te conta…Eu conto!


Evelin Miyai
4 de julho de 2017 at 01:39Felipe Miyai
Adriana Lotti
2 de julho de 2017 at 12:49Eu nem consegui me formar…tudo sempre foi muito difícil pra mim… Eu larguei tudo para me dedicar só aos meus filhos, não me arrependo pois vejo a alegria dos meus filhos em te a mãe sempre do lado deles. Mas as pessoas tem muito preconceitos, acham que nós não fazemos nada. Agradeço a Deus todos os dias a Deus por ter ficado os esse tempo com meus filhos!!
Mamãe Plugada
2 de julho de 2017 at 16:22As pessoas têm sim. Muito triste de ver como as decisões alheias são julgadas e criticadas
Adriana Lotti
2 de julho de 2017 at 18:10Verdade!!
Bruna
23 de julho de 2024 at 16:26Eu estou justamente nesse dilema nesse exato momento, faltam duas semanas para o fim da minha licença e a grande questão é: voltar a trabalhar ou não? Torço para ser demitida, caso não seja posso pedir demissão, mas que decisão difícil!
Beti Rodrigues
2 de julho de 2017 at 04:37Carlacris Campos
Daiana Souza
2 de julho de 2017 at 01:38Larguei tudo. Sou jornalista e trabalhava há anos em Redação de jornal diário. Sem fim de semana e muito pouco tempo livre. Não é fácil ficar integralmente com um bebê, mas não me arrependo de nada. Porque estar presente na vida da minha filha na primeira infância me faz feliz e certamente faz ela feliz tb. Apesar da sobrecarga e do olhar torto da sociedade (teve quem me disse que filhos precisam que a mãe tenham ocupação/profissão pra poderem falar pros coleguinhas na escola), me sinto plena.
Flavia Peres Sabagh
2 de julho de 2017 at 01:25Ellen Giuntoli
Erika Telhado
2 de julho de 2017 at 01:13#tamujunto
Amanda Assis
1 de julho de 2017 at 22:40Daniela Santos
1 de julho de 2017 at 22:02Estou nessa Marry, deixei a gerência de uma vara cível no judiciário para me dedicar a minha filha e empreender, para seguir meu propósito de vida! É realmente é um tabu por incrível que pareça. Por outro lado, sinto muito apoio das pessoas que vibram como eu nessa sintonia e me apego a isso para ter cada vez mais entusiasmo e poder realizar meu sonho. Quanto a estar com minha pipoca em casa, é realmente acalentador!
Gleice Kelly
1 de julho de 2017 at 18:17Sempre tive a vontade de largar tudo pra viver a maternidade! Quando fui mãe aos 25 anos estava no início da minha carreira como cirurgia dentista, consegui me dedicar a Luiza até 1 ano e meio. Infelizmente as circunstâncias me fizeram retornar ao mercado de trabalho, sinto tanta falta de estar com ela o dia todo!
Fabiana Marques
1 de julho de 2017 at 17:13Tb deixei minha profissão de veterinária para ser mãe tempo integral…não é fácil, mas tenho certeza tb que estou fazendo o melhor para ela parabéns para nós por enfrentar essa sociedade tão julgadora sobre esse assunto #tamojunto
Mamãe Plugada
1 de julho de 2017 at 17:42É muito tabu, né? ?