O Brasil consome cerca de 20% de todo o agrotóxico comercializado mundialmente, num cenário onde o mundo desenvolvido vem buscando pela sua “desintoxicação”. Neste post, veremos as diferenças aceitadas dentro do nosso país, em comparação ao tido como razoável no resto do mundo. Brasil, por que tanto veneno na nossa comida?

Quando estava na faculdade de Economia na maior Universidade de Ciências Ágrárias da América Latina (ESALQ-USP), um dos meus primeiros trabalhos acadêmicos foi falar sobre a cadeia agroindustrial de algum produto. Escolhemos o limão. Fomos até uma fazenda produtora e exportadora e me lembro do quão chateada fiquei com a diferença gritante entre os produtos destinados à exportação e aqueles que ficariam para nós, o consumo interno. Os produtos para exportação eram lindas frutas, impecáveis. As nossas não eram feias, mas se colocadas lado a lado, dava vergonha. Imaginei, em meu primeiro ano de faculdade, que acabava aí o “imperialismo as ocultas”. Ledo engano.
O problema não é ficarmos com as frutas mais feias. O problema é colocarem todo o agrotóxico para que a gente consuma, enquanto o resto do mundo busca por alimentação consciente e de qualidade.
Não vou ser utópica a ponto de falar que não precisamos mais dos agrotóxicos, afinal, o Brasil tem sua economia brasileira basicamente agroexportadora. Porém, já está mais que na hora de discutir uma solução que leve em conta os pontos ressaltados por esse post e a economia nacional: Afinal, como fazer para “não quebrar o país” sem que isso custe nossas águas com 200x mais residuos que a União Européia? Sem que nossa população tenha que adoecer aos poucos em prol do PIB agroexportador?
Larissa Mies Bombardi, da USP, publicou recentemente o livro “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Européia”, um trabalho interessantíssimo que convido todos a ler. Nele, entre várias análises que ela faz, compara o consumo de agrotóxicos por nós e pela União Européia que, em 2011, vem sendo muito mais restritiva ao uso de agrotóxicos, fazendo com que uma série de ingredientes sejam deixados de ser usados em todo o bloco econômico.
No Brasil tem-se, segundo a citada autora, 504 ingredientes ativos AUTORIZADOS, de uso permitido, enquanto na União Europeia só é permitido o uso de 149.
Mesmo com essa diferença gritante entre os princípios permitidos, aqui no Brasil as quantidades usadas são monstruosamente maiores, como vocês podem ver nas imagens do livro publicado pela citada autora. Vejam com seus próprios olhos:
É, parece que acharam no Brasil o mercado consumidor para aquilo que o mundo desenvolvido não aceita mais consumir…
Continuamos na era de D. João VI em que recebíamos patins de gelo no Brasil já que éramos obrigados a consumir de outros países? Acho que está pior…As pessoas nem fazem idéia do que anda sendo aceitável na nossa comida por aqui…
Sem radicalismos, mas vale a reflexão: precisamos mesmo dessa quantidade de agrotóxicos na nossa comida? Quando, enfim, olharemos para pesquisas como a de Larissa e colocaremos elas em patamares de discussões econômicas, para que achemos uma solução mais plausível de vida com alimentos de qualidade e um PIB agroexportador ok?
Sobre os 20% do total de agrotóxicos produzidos pelo mundo ser consumido pelo Brasil, mesmo diante da dimensão territorial e da importância que o setor agrícola tem para o pais, precisaríamos debater as quantidades permitidas.
Um dia precisaremos debater o bem estar econômico X social para acharmos um ponto de equilíbrio, que não me parece esse… E essa é uma excelente oportunidade!
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